Paterson

VIDA E VIVÊNCIA – Se observarmos como alguns indivíduos sabem lidar com suas vivências – suas insignificantes vivências diárias – de modo a elas se tornarem uma terra arável que produz três vezes por ano, enquanto outros – muitos outros ! – são impelidos através das ondas dos destinos mais agitados, das multitárias correntes de tempos e povos, e no entanto continuam leves, sempre em cima, como cortiça: então ficamos tentados a dividir a humanidade numa minoria (“minimaria”) que sabe transformar o pouco em muito e numa maioria que sabe transformar muito em pouco; sim, deparamos com esses bruxos ao avesso, que, em vez de criar o mundo a partir do nada, criam o nada a partir do mundo.
Aforismo 627 publicado em HUMANO DEMASIADO HUMANO (Um Livro para Espíritos Livres) – Friedrich Nietzsche

 

Imagine-se o motorista de ônibus que observa e absorve as cenas do cotidiano pelo filtro da poesia.
Considere que tal personagem é casado com a mulher que o admira como poeta, que se supõe artista, cozinheira e cantora, e que sonha em ter filhos gêmeos com seu marido.
Constate que este reduzido núcleo familiar se completa com a presença do cão que faz o papel do animal de estimação.
Para ele, o motorista-poeta, tudo está sempre bem.
Seu preferido passatempo é rabiscar poemas num caderno cujo conteúdo mantém em segredo.
A vida, capturada assim, é marcada pela regularidade dos acontecimentos.
Como se não houvesse o extraordinário e a existência se reduzisse à sua instância ordinária, numa espécie de fenomenologia da superfície das coisas onde o acidente não tem vez.
Este amontoado de acontecimentos regulares é o argumento para o surgimento do filme PATERSON, nome da cidade onde as cenas se passam, e igualmente o nome do motorista-poeta.
PATERSON, a personagem, mantém com a cidade uma relação de identidade.
Ouve conversas dos passageiros do ônibus que dirige como quem ouve anti-acontecimentos: dois homens que conversam animadamente acerca de mulheres cobiçadas por eles mas que não resultaram em nada de mais significativo; dois estudantes que se consideram os ÚNICOS anarquistas da cidade chamada PATERSON.
Suporíamos, apressadamente, estarmos diante do filme destituído de roteiro, em cenas que se iniciam na manhã da segunda feira e que terminam no domingo que antecede a segunda feira da próxima semana.
Jim Jarmusch, o talentoso diretor americano, sonega informações acerca das personagens.
Não sabemos se têm parentes, se nasceram em PATERSON, por que vivem ali ou quais são suas raízes.
São personagens desenraizadas e que nos são apresentadas tão somente pelo que vivem e experimentam diariamente.
Talvez não haja passado remoto ou futuro imediato para PATERSON e LAURA, sua esposa.
Não há distinção entre a segunda, a terça ou a quarta feira, ainda que LAURA “surpreenda” PATERSON a cada dia que este retorna à casa após mais um dia ao volante do ônibus urbano.
Até mesmo as “surpresas” de LAURA, contudo, se revelam “previsíveis”.
Sabemos que os animais, mesmo os domesticados, vivem no hiato localizado entre o passado e o futuro.
Terão, assim, PATERSON e LAURA assumido certa emulação da vida vivida por seu cão de estimação ?
A pergunta se faz necessária porque ao final do filme, PATERSON, lembrando de certa canção que lhe fora apresentada pelo avô na infância, se pergunta acerca da possibilidade de viver como peixe,  porco ou vaca.
PATERSON parece indicar que aos homens não é possível qualquer vivência extraordinária fora da poesia.
À margem da poesia somos sentenciados a viver entre os muros dos acontecimentos ordinários.
Como o cão da família: a quem é interditada a vida contemplativa.
Lembrei-me da obra de Clarice Lispector, cujas personagens experimentam epifanias a partir de experiências genuinamente cotidianas.
Como não existe prenúncio ou antecipação da experiência epifânica, Clarice nos sinaliza que é da própria matéria bruta do cotidiano que brotam possibilidades intensas de poesia.
O cego mascando chiclete, a rosa no vaso à mesa de centro da sala de estar, a barata na porta do armário ou a caixa de fósforos, embora tantas e inúmeras vezes já vistos, revelam-se matrizes poéticas da mais alta voltagem.

Capazes de transformar mesmidades em alteridades.
Ainda que a alteridade desapareça no instante seguinte e tudo seja restituído à mesmidade original e identitária.
Jim Jarmusch parece ligar a câmera para capturar mais do mesmo.
Sua narrativa opera na frequência de quem está à espera daquilo que não vem.
O procedimento, contudo, não nos deixa em compasso de espera exasperada.
O filme respira certo ar rarefeito mesmo em cenas de certa tensão, quando, por exemplo, os garotos ouvindo hip hop no carro alertam PATERSON para que tome cuidado com o roubo de cães de estimação.
Ou quando o namorado rejeitado pela mulher amada ameaça se suicidar com arma de brinquedo no bar frequentado por PATERSON.
Em “Estranhos no Paraíso” e em “Daunbailó” Jim Jarmusch já optara por seguir a trilha dos roteiros que desembocam em “nada”.
Parece acontecer o mesmo em PATERSON.
O motorista-poeta atravessa a semana como o SÍSIFO que subisse a montanha à procura dos versos e sucumbisse à repetição do “fracasso” na empreitada.
Ao ver seu caderno de poemas manuscritos totalmente destroçados pelo cão de estimação, PATERSON como que se assusta com a irremediável perdição da poesia.
Sabemos, entretanto, que ainda que todos os livros com poemas fossem destruídos por alguma hecatombe literária, a deusa da MEMÓRIA é mãe das musas que possibilitam a poesia.
Não somos peixes, vacas ou porcos.
Não queremos viver como peixes, vacas ou porcos.
PATERSON seguirá acordando a cada manhã para dirigir o ônibus pelas ruas da cidade.

Só suporta, todavia, a própria vida, porque arranca do “MESMO” a poesia ali escondida.

Lamento, apenas, que o filme se tenha sustentado tão bem até o momento em que um personagem surgido do nada presenteie PATERSON com um caderno de folhas em branco.

Tão preciosa possibilidade de recomeço merecia amarração mais engenhosa.

 

Luiz Carlos Andrade Santos

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