Primeiro Texto
por Edgar Domingo de Albuquerque

 

Quando Regina me convidou para escrever aqui, confesso, fiquei relutante. Não por medo de embarcar nessa aventura, escrever têm sido uma experiência cada vez mais intensa nesta fase da minha vida, a relutância foi sobre o quê escrever. Educação, óbvio. Educação é meu ganha pão, é minha profissão e é o que eu venho fazendo, entre trancos e barrancos, nos últimos 21 anos. Escrever sobre Educação, essa com ezão, que trata da escola e das suas nuances todas. Talvez fosse essa a expectativa da Regina e de algumas outras pessoas que orbitam esse meu microcosmo. Textos sobre Educação. Relutei, ensaiei uns três ou quatro textos, inconclusos, todos deletados no dia seguinte. Hoje, voltando das compras no mercado, dirigindo pelas ruas dessa Sorocaba que me acolhe desde o nascimento, pensava, tenho que escrever para a Regina, para o Fora da Caixa, para a Openzine. Tenho que escrever algo, menos sobre Educação.

Abandonei o doutorado em Educação por uma razão muito simples, eu não tinha nada a dizer. Nada a defender, nenhuma tese. Durante os três anos nos quais fiz os créditos obrigatórios e os eletivos, nos quais li diversos autores sobre o tema ao qual me inclinei, a Universidade, nos quais participei de congressos e conversas com colegas e com meu orientador, depois desses três anos, me faltando apenas por no papel, na tese, todas as ideias, elas me sumiram. Ou eu sumi com elas. Ok, serei honesto. Dizer o que eu tinha para dizer às pessoas da academia seria, como se diz no popular, chover no molhado. O meio acadêmico consegue ser, muitas vezes, um reino do faz de conta. Na verdade, o doutorado me fez ver que eu não precisava dele para dizer o que eu quero dizer. As pessoas com as quais quero dialogar não são as das bancas, dos congressos, dos colóquios, do Olimpo. Abandonei o doutorado e passei a escrever crônicas no facebook.

Escrever simples. Sem firulas acadêmicas, sem regras da ABNT, sem rodeios ou, com rodeios, mas estilísticos, rodeios que deem sabor às palavras, que as tornem palatáveis, temperadas e, na medida do possível, que deixem o leitor com água na boca. Escrever simples, sem simplificar ou ser simplório. Simples. A banda Nenhum de Nós tem uma música que me vem à cabeça neste momento. Simples é uma canção de amor, nada que ver com Educação, diz ela:

Mas nada que eu diga me parece exato
Nada que eu pense tem um sentido claro
Nenhuma canção vai me ajudar a descobrir
[…]
Queria te dizer
Palavras simples
Mas a palavras certas não existem no universo inteiro

Educar é um ato de amor. Não, não desse tipo de amor. A Língua Portuguesa tem muitos usos para a palavra amor, abrasileirada, ganha mais tonalidades ainda. Amor aqui, no ato de educar, é um querer compartir. Amor aqui nada tem de sacerdócio, de abnegação de si mesmo, de doar-se. É um amor que dá justamente porque ao dar, não perde. Paulo, o Freire, me ensinou que educar é um ato de generosidade. Uma generosidade amorosa. Anos antes do encontro mais íntimo com os escritos do Freire, um outro professor já havia plantado uma ideia na minha cachola rocinante. Edson, o de Oliveira, numa de suas aulas, em tom jocoso, disse-nos: se vai dar certo ou se vai dar errado, o importante é dar. Rimos todos. Dar, o importante é dar. Demorei anos para entender que por detrás da jocosidade havia amor. Educar é um ato de amor. Dar, por isso damos aulas, ainda que sejamos pagos para isso, ainda que não sejamos reconhecidos por isso.

Parei o carro no farol, o mesmo farol que fez famosa uma das minhas crônicas do facebook. Famosa porque muita gente curtiu, ainda que muita gente aqui seja apenas um punhado de amigos, alunos e ex-alunos, é o meu microcosmo, é muita gente. Famosa porque acabou parando na sala de aula de uma aluna que usou a minha crônica para ensinar o que é uma crônica. Irônico! Deixei o doutorado para escrever crônicas e, uma delas ao menos, encontrou caminho para a sala de aula, insistiu em ser o que eu não queria, um texto acadêmico. Um texto de uso acadêmico, um exemplo em aula sobre os elementos de um gênero literário. Aprendi outra lição que já me havia sido dada, mas que só foi apreendida diante desse fato inusitado. Nossas palavras são nossas apenas enquanto o texto está inconcluso. Serão apenas nossas se as deletarmos no dia seguinte, pois ao torná-las públicas, deixam de ser nossas, passam a ser suas, leitor. Fogem de nossos propósitos, escapam-nos e ganham vida nas mentes de quem às lê. Damos as palavras, não as escrevemos.

Escrever simples, simplesmente escrever. Escrever, ainda que as palavras certas não existam no universo inteiro, invento-as. Esse sou eu falando comigo mesmo, a minha escrita, as minhas ideias. Se vai dar certo, ou se vai dar errado, o importante é dá-las. É o que eu farei aqui, vez ou outra, leitor. Dar-te-ei algumas palavras, sobre o que for, ainda que sejam sobre Educação, dar-te-ei e, dai em diante, é com você. Boa sorte!

 

Edgar é educador, professor de várias coisas em vários lugares. Mestre em Educação, também estudou Letras e Filosofia. Escreve para por para fora o que não cabe na ca(i)chola.

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