A VIDA DE GANDHI – INTRODUÇÃO

 
Quando GANDHI nasceu o governo Britânico tinha se estabelecido na Índia. A revolta de 1857, conhecida como Motim, tinha servido meramente para consolidar a aventura dos Britânicos em um império. A Índia tinha efetivamente passado para a tutela britânica, tão efetivamente que, ao invés de se ressentirem pelo governo estrangeiro uma geração de Indianos educados estavam ansiosos em se submeter à “missão Civilizatória” de seus senhores estrangeiros. A submissão política tinha sido reforçada pela servidão intelectual e moral. Parecia que o império Britânico na Índia estava a salvo por séculos.
Quando Gandhi morreu foi a Índia, uma nação livre que lamentou sua perda. Os deserdados tinham recuperado sua herança e a “massa silenciosa” tinha encontrado sua voz. Os desarmados tinha vencido uma grande batalha e tinham no processo evoluído sua força moral ao ponto de atrair a atenção, e até certo ponto, a admiração, do mundo. A estória desse milagre é também a estória da vida de Gandhi, pois ele, mais do que qualquer outro foi o arquiteto desse milagre. Desde então seus compatriotas agradecidos o chamam de o Pai da Nação.
Apesar disso seria um exagero dizer que Gandhi sozinho forjou esse milagre. Nenhum indivíduo, por maior e mais maravilhoso que seja, pode ser o único construtor de um processo histórico. Uma sucessão de incríveis predecessores e antigos contemporâneos extraíram e quebraram as pedras que ajudaram Gandhi a pavimentar o caminho para a independência da Índia. Eles puseram em movimento uma série de tendências na consciência intelectual, social e moral do povo as quais o genial Gandhi mobilizou e conduziu em uma grande marcha. Raja Rammohan, Ramkrishna Paramhansa e seu grande discípulo, Swami Vivekananda, Swami Dayananda Saraswati, Dadabhai Navroji, Badruddin Tyabji, Syed Ahmed Kan, Ranade, Gokhale, Tilak, Aurobindo Ghossh and Rabindranath Tagorre, para nomear apenas alguns.
Cada um deles teve a seu modo, um campo que criou consciência do destino da Índia e ajudou a gerar um espírito de sacrifício que, nas mãos de Gandhi, tornaram-se instrumentos de uma vasta revolta política e moral. Caso Gandhi tivesse nascido cem anos antes dificilmente ele teria alcançado o que conseguiu. Mesmo assim, é verdade que, se não fosse por Gandhi, o destino político da Índia teria sido tremendamente diferente e sua posição moral imensamente inferior.
Mas embora Gandhi tenha vivido, sofrido e morrido na índia pelos Indianos, não é apenas em relação a Índia que sua vida tenha importância. Futuras gerações não só se lembrarão dele como um patriota, político e construtor da nação mas muito mais. Ele foi essencialmente uma força moral, o qual apelou à consciência do homem e podemos considerá-lo universal. Ele foi o servo e o amigo do homem como homem e não só pertencente a esta ou aquela nação, religião ou raça. Se ele trabalhou apenas pelos indianos é porque nascer entre eles e devido sua humilhação e sofrimento forneceram o incentivo necessário para sua sensibilidade moral. A lição de sua vida é desta forma para todos lerem. Ele não fundou nenhuma igreja e embora vivesse pela fé ele não nos deixou um dogma para os fiéis discutirem. Não deu atributo as a Deus a não ser a Verdade e não prescreveu um caminho para atingi-la que não fosse uma busca honesta e incansável através de meios que não machucassem nenhum ser vivo.
Quem ousa assim declarar que Gandhi fazia pelos seus a não ser declarar que ele fazia por todos? Outra lição de sua vida que deveria ser de interesse universal é que ele não nasceu um gênio e não mostrou no início de sua vida uma faculdade extraordinária que não é encontrada em homens comuns. Ele não era um bardo inspirado como Rabindranath Tagore, ele não tinha visões místicas como Ramakrishna Paramahansa, não era um garoto prodígio como Shankara ou Vivekananda. Ele era apenas uma criança comum como a maioria de nós. Se havia algo de extraordinário nele em sua infância, era a sua timidez, uma deficiência que ele sofreu por muito tempo.
Sem dúvida, algo que extraordinário estava latente em seu espírito que veio mais tarde a se desenvolver em uma vontade de ferro e combinada a uma sensibilidade moral que o tornou quem ele foi, mas havia pouca evidência disso em sua infância. Nós devemos assim atribuir sua coragem e inspiração do conhecimento que se ele se tornou quem foi, não há razão evidente que nós também não somos capazes de fazer o mesmo. Sua genialidade, se assim a chamamos, era uma capacidade em transformar as dores em realizações incansáveis de impulso moral.
Sua vida foi uma batalha constante, um incessante sadhana, uma busca incansável pela verdade, não abstrata ou verdade metafísica, mas aquela verdade que pode ser percebida nas relações humanas. Ele subiu passo a passo, cada degrau não maior que o humano, até quando ele se viu nas alturas e parecia mais do que um homem.
“As gerações que virão, podem, mesmo não acreditar”, escreveu Einstein, “que um indivíduo como este, de carne e sangue caminhou por esta terra.” Se no final ele não parecia como nenhum outro homem, é bom lembrar que quando ele começou ele era como qualquer outro.
Esta é a grande lição de sua vida. Felizmente, ele mesmo registrou muitos dos incidentes de sua vida até 1921 e descreveu com veracidade escrupulosa a evolução de sua consciência moral e intelectual. Se ele não tivesse feito isso, teria havido na Índia, muitos cronistas devotos que teriam inventado presságios divinos em seu nascimento e investido com um halo de sua infância.

Tradução realizada por Regina Proença.
Link com o texto original em inglês:
http://www.mkgandhi.org/bio5000/introduction.htm

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