O filme “O Que Está Por Vir” se nos apresenta com inúmeras cenas que não duram sequer sessenta segundos.
Dito assim, sem que o leitor tenha assistido ao filme, tem-se a impressão de que estamos frente à somatória de inúmeros vídeo-clipes desconectados.
Nada mais equivocado.
O minimalismo do filme não se traduz em frenesi.
Trata-se de cenas mínimas que revelam a delicadeza das reações humanas quando diante de acontecimentos que só aparentam (em verdade não o são) ser gatilhos demolidores da existência.
O fim do casamento de muitos anos, a morte da mãe que lhe é dependente, os filhos que já não moram consigo ou a perda do emprego, ainda que impactantes, não destróem a existência.
Antes rearranjam nossos sentimentos em patamar diferente.
Patamar, palavra de sonoridade indócil, representa o estágio intermediário entre o antes e depois.
A protagonista precisa encontrar a bússola que a oriente nesse novo patamar.
Sente-se livre.
Do marido, da mãe, dos filhos ou das aulas de filosofia que lecionava na escola.
Entretanto, de que vale a liberdade involuntariamente conquistada ?
Pandora, a gata da mãe falecida e da qual a princípio se quer desvencilhar, torna-se objeto do seu afeto.
Quando em patamar intermediário (e sempre estamos em patamar intermediário), algo na vida se desestabiliza.
Por se oferecer à apreciação estética através do alinhavamento de tantas pequenas cenas, é digna de elogio a sequência em que a protagonista visita em companhia do ex-marido, e pela última vez, a casa de praia em que anualmente passavam as férias na Bretanha.
Ao telefone fica sabendo que sua mãe não está bem de saúde e retorna a Paris, interrompendo a despedida do lugar que tanto ama.
A síntese das cenas em que pede ao ex-marido que a leve à estação de trem, arruma sua mala de viagem, o trajeto silencioso de ambos no automóvel, seu olhar para as praias das quais se despede, e a chegada em Paris para encontrar a mãe, transpõe-nos à evidência de que “O Que Está Por Vir” é um grande filme.
Transcorreram muitos minutos com tantas pequenas cenas e é a primeira vez que temos a música não diegética ilustrando a cena em que o ex-marido a leva até a estação de trem.
Só nós, espectadores, ouvimos aquela canção que parece um lied de Schubert (não consultei a ficha técnica para saber se realmente o é).
O silêncio de ambos na cena do carro, no entanto, é tomado pela canção que nos fisga emocionalmente sem banalizar o que se passa na tela do cinema.
Nathalie (esse é o nome da protagonista mais uma vez magistralmente interpretada por Isabelle Huppert) é quase o arquétipo daqueles que estão deslocados no mundo que se desintegra ou liquefaz.
Vai ao cinema assistir “Cópia Fiel” do talentosíssimo Abbas Kiarostami e por ser assediada durante a sessão não vê o final do filme.
Procura algum sentido no comportamento dos jovens e não o encontra.
Os livros de filosofia que lê mais parecem teorias divorciadas da realidade que paradoxalmente só é pós-moderna por respeitar as leis do mercado (o quê ou quem é o mercado ?).
Eis que justo nesse patamar nasce o filho da sua filha.
Nathalie agora é avó.
E por ser avó ressignifica o patamar em que se encontra.
A cena final me lembrou a proposta de Pier Paolo Pasolini para a sétima arte, que pugnava pela existência do cinema-poesia.
Mia Hansen-Love (este é o nome da diretora) nos relembra que os patamares nada mais são do que o eterno retorno do começo.
Nathalie, ao final do filme, cantando a canção de ninar para o neto que chora em seu colo nada mais é do que a representação da volta ao começo…
Infinitamente…

Luiz Carlos Andrade Santos

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