O filme “JOAQUIM”, de Marcelo Gomes, a exemplo da obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, abre com a imagem do busto de TIRADENTES e a fala do narrador defunto.
O recurso narrativo será utilizado apenas uma vez mais durante o filme, abandonando-se por completo, a partir daí, a figura do narrador cuja voz se encontra fora da imagem.
Lembro do estratagema da narrativa em off porque Marcelo Gomes constrói grandiosamente seu filme do início à conscientização política de JOAQUIM, acontecida pouco antes dos episódios finais do filme.
As cenas são costuradas com lapidar preocupação em nos apresentar um personagem histórico em sua mais completa humanidade, bem distinto do TIRADENTES que conhecemos dos livros de História do Brasil.
JOAQUIM é ambicioso, escravocrata, vaidoso, violento e machista.
Não dispõe de recursos intelectuais para envelopar tais características.
Pretende ascender socialmente através do dinheiro e proximidade com os poderosos.
É apaixonado pela escrava que trata como quem nada mais espera dela a não ser a servidão de toda ordem.
Ao redor de JOAQUIM transitam personagens arquetípicos da estrutura social que sustenta a engrenagem do Brasil que é colônia de Portugal: o índio, o negro, o alferes, o padre, o governador intendente, o poeta e o imigrante português que não se encaixa no papel que lhe é designado na colônia.
São exuberantes as imagens em que alguns dos personagens peregrinam em busca do ouro existente na região.
São emblemáticas as relações que se tecem entre o negro e o índio, entre este e os brancos, entre aquele e seu dono, entre este e o português recém chegado à colônia.
É de particular significância o instante em que o negro e o índio, cantando seu canto ritmado, como que reencontrassem certa matriz que lhes fosse comum.
A cena se dá em meio à expedição comandada por JOAQUIM.
Enquanto o branco, o português e o capataz estão às voltas com o sucesso ou fracasso da expedição, o negro e o índio parecem totalmente integrados à paisagem a um só tempo bela, rústica e ameaçadora.
A carpintaria dramática do filme arrasta-nos para bem próximo dos corpos dos personagens.
A câmera opera quase que em contiguidade à massa física que aqueles corpos representam.
Tudo costurado com maestria por Marcelo Gomes.
Eis que JOAQUIM, embora vitorioso solitário em sua busca obsessiva do ouro que compraria a ascensão social, se percebe vítima da engrenagem que não lhe permitirá conquistar os objetivos mais básicos.
O amigo poeta apresentará a literatura estrangeira que lhe abrirá a senda para a possível conscientização política.
E é aqui que o filme perde toda a potência exibida até então.
JOAQUIM (o personagem) se torna caricato, mesmo tendo presenciado a força e beleza do ritual numa quilombola de escravos fugitivos, ritual este presidido pela ex-escrava por quem é apaixonado.
Serão “ideias fora do lugar” ou “ lugar fora das ideias”, como expressões utilizadas por Roberto Schwarz e José Miguel Wisnik em análise acerca da importação das ideias para lugares e corpos que não lidariam bem com elas, as idéias liberais importadas, a menos que as caricaturizem ?
Ou será que fora da caricatura só nos resta a antropofagia como caminho para construção de ideias originais ?
Embora a cena final revele o Brasil e suas estruturas de poder do século XVIII e que seguem vigentes em pleno século XXI, a esta altura o filme já se despotencializou e perdeu a grande oportunidade de composição que anunciara em seu início.
Uma pena…

Luiz Carlos Andrade Santos

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