Uma alma de andarilha na Espanha

Minha viagem à Espanha não foi a turismo, fui para apresentar o programa de Educação para Paz que desenvolvo junto à minha equipe do coletivo cultural Fora da Caixa em parceria com o Educandário e Instituto André Luiz. Durante uma semana fiquei junto a outros 60 educadores com a comunidade do International Institute on Peace Education na Universidade de Granada, na Andaluzia. Este relato não é sobre esse encontro, escrevi um outro artigo contando como foi essa experiência. quem quiser pode acessá-lo neste link.

Aqui vou descrever minhas andanças pela cidade de Málaga e o pequeno vilarejo de San Lorenzo de El Escorial, que fica próximo à Madrid, onde visitei uma amiga brasileira, Andrea Pascale, que conheço desde minha adolescência. Geralmente escrevo sobre minhas peregrinações e locais sagrados que visito, mas desta vez o relato é sobre uma experiência cultural.

Em primeiro lugar, eu gosto de viajar sozinha, sem grandes planos ou lugares definidos que são famosos em roteiros comerciais, sou avessa à manadas. Gosto de sentir a liberdade de descobrir os locais a partir de interesses como Arte, Gastronomia, Jardins e encontros inusitados. Para muitos o fato de estar desacompanhada já é um obstáculo, não vou dizer que as coisas poderiam se resolver de forma menos complicada quando temos alguém ao nosso lado. Mas no meu caso, acho que exercitar a resolução de problemas e buscar os caminhos espontaneamente é um teste de coragem e autoconfiança. Problemas acontecem, desde ter que correr muito (o que no meu caso é bem complicado) para não perder a conexão de algum vôo, descobrir que o número do portão de embarque está incorreto e o portão correto está do outro lado do aeroporto, coisas que exigem um controle emocional e uma habilidade de comunicação muitas vezes em línguas que não domino.

Me sentir uma cidadã do mundo é muito precioso para mim, me encontrar entre pessoas e culturas que são estranhas e ao mesmo tempo encantadoras é uma satisfação que não tem preço. Há muito tempo sou formada em “Sevirologia” (A arte de se virar) e isso me dá uma segurança de que mesmo nas situações mais complicadas, estamos lidando com seres humanos e a essência dos humanos é sempre boa. Com raras exceções, as pessoas fazem o máximo para ajudar, esclarecer e buscar soluções para minhas solicitações. Estranhos completos já me livraram de circunstâncias desafiadoras e isso confirmou minha tese da bondade inúmeras vezes.

Saíndo de Granada de ônibus em direção à Málaga, na costa da Espanha, foi um trajeto de pouco mais de uma hora.  A combinação do período de verão com as férias de meio de ano deixou a cidade repleta de turistas, pessoas que estão ali para curtir o melhor da temporada, com corpos bronzeados, passeando pelas ruas, lojas e restaurantes, grupos de amigos e famílias inteiras. As férias são levadas muito à sério para os europeus em geral, nada de ficar trabalhando demais ou deixar de curtir esse período tão importante de descanso e/ou diversão. O verão convida as pessoas a ficarem ao ar livre.

Minha hospedagem foi em um Hostel com cápsulas, foi um tanto estranho no início mas no fim acabei gostando, apesar do aperto. A economia no Brasil raramente nos permite desfrutar de momentos como estes, as viagens com a família ou amigos não duram semanas, um final de semana ou uma semana em um dos muitos locais maravilhosos que existem em meu país custa uma fortuna e esse privilégio é acessível a poucos. Sem falar que os preços das passagens aéreas mesmo dentro do país muitas vezes são mais caras do que para o exterior. Por isso mesmo tento aproveitar o máximo possível quando tenho a oportunidade de conhecer outros países. Mesmo com um orçamento pequeno, tento apreciar da melhor forma a oportunidade de estar ali.

Assim que cheguei na rodoviária peguei um taxi até onde fica a catedral de Málaga, um centro importante de referência. Eu ainda tinha algum tempo antes de poder fazer meu check in no hostel, precisava fugir do calor, conectar em algum wi-fi e comer algo gostoso. É muito fácil encontrar restaurantes ali no centro, evitei as ruas principais pois eram mais caras e cheias de turistas; sentei para comer no sossego e ar condicionado.

Depois de deixar as malas no hostel, saí para caminhar e explorar a vizinhança.

Um dos meus objetivos na cidade de Málaga era visitar o Museu de Picasso, mas quando saí de meu hostel em direção ao museu descobri outros lugares que me encantaram e fiz minha primeira andança totalmente sem destino…

Eu sou aquela pessoa que gosta de observar os detalhes, as construções, o movimento, as flores, portas e janelas me encantam. Talvez por isso caminhar sozinha seja um bônus, posso parar a qualquer momento, meu ritmo naturalmente já é lento então tiro o maior proveito disso. Sem pressa, passinho por passinho…

As cores são vibrantes em vitrines e ruelas. Roupas tradicionais do flamenco e objetos relacionados estão em toda parte.

Ao conversar com uma vendedora em uma loja de souvenirs, esbanjando meu fluente “portunhol” ou “espanglês” acabei descobrindo que eu estava na esquina do Museu Carmen Thyssen, que também estava em minha lista e para deixar ainda mais atraente e entrada aos domingos era de graça. Combinação perfeita!

O museu tem um acervo belíssimo, fotografei as obras que mais chamaram atenção, principalmente pelo jogo de claro e escuro das pinturas, sem me ater aos autores ou período que foram pintadas, apenas pelo encantamento.

Depois da visita continuei a perambular pelas belas ruas de Málaga, descobrindo praças, feiras com artesanato local, muitas comidas e sorveterias para todos os gostos. Andei por tudo até o cansaço bater e então voltei para meu hostel.

Eu não podia voltar antes de experimentar um gelato e comer algo gostoso, né? Quando viajo busco experimentar coisas locais, sabores, texturas e aromas que são encontrados em inúmeros locais em Málaga e que serão parte de minhas memórias e células quando voltar ao Brasil.

Olha que lindeza o artesanato local!

No dia seguinte decidi conhecer a praia, dei uma pesquisada e vi que a mais popular e perto de onde eu estava hospedada era a Malagueta. Juntei minha canga, uma troca de roupa, pois ia passar o dia fora e ficar de biquíni com areia não era uma opção.

Uma praia com ondinhas, super frequentada por famílias e turistas em busca de diversão e sol, muito sol. É muito comum as pessoas fazerem topless e ficarem super confortáveis na areia. Esse clima de descontração fez desse momento um deleite e passei uma manhã deliciosa, relaxando, curtindo a vista, ouvindo música e descansando. O dia estava ainda começando então essa parada foi ótima para recarregar as baterias. Confesso que não entrei no mar, como na minha bolsa estavam passaporte, cartões e documentos de viagem que não quis deixar no hostel, não senti segurança em deixar na areia e entrar no mar. Sim, roubos nas praias acontecem, um amigo foi roubado na Suíça ao deixar suas coisas na areia e entrar para nadar no lago em Neuchâtel, achei melhor não arriscar…

Aproveitei para tomar uma ducha na saída e isso já me deixou contente pois não tive problemas para ficar o dia todo andando e sem o atrito da areia e água salgada.

Já saí da praia com fome, sentei para almoçar e curtir um pouco mais da brisa na orla.

Era meu último dia na cidade e todos os momentos tinham que ser apreciados da melhor forma.

Roupa trocada, barriga cheia e refrescada, saí para explorar o entorno. Tinha como objetivo caminhar até o Museu de Picasso, mas ao me dirigir à região do porto me deparei com o Centre Pompidou, um local que abriga um acervo incrível e fiquei encantada em conhecer.

O impacto que algumas obras de arte provocam em nossa alma é algo inexplicável. Talvez por não ter antecipado a visita neste local e nada saber das obras que estavam ali senti uma alegria profunda ao me deparar com um Jackson Pollock logo na entrada.

Entre pinturas e instalações visitei o acervo, me sentindo renovada pela energia dos artistas e também aliviada devido ao calor intenso. Ar condicionado nessas horas pode salvar sua vida!

A loja com artefatos e livros interessantíssimos é sempre uma tentação! Posso passar em frente a muitas lojas em liquidação e não sentir vontade de entrar nem pra ver. O meu espírito consumista já me abandonou faz tempo! Mas os livros, ah os livros…me chamam e me agarram. Não consegui sair de lá sem um dos que mais me chamou a atenção…

Continuei minha trajetória com algumas pausas para apreciação no caminho, as praças, parques e a natureza exuberante em Málaga é um convite para contemplação.

Pelo número de pessoas andando com suas malas já percebemos que nos aproximamos da área mais turística e onde ficam os melhores hotéis.

Caminhando por entre as ruas aproveitei para fazer um pitstop e degustar um gelato e café em uma das melhores cafeterias do local. Indescritível a sensação de satisfação. Quem ama café e sorvete vai me entender…

Então, como explicar Picasso? Um ser humano tão autêntico, cheio de inspiração pelo mundo, pelas pessoas, fragmentos e distorções que revelam a perfeição da imperfeição. Alguém pode até copiar o estilo Picasso, mas sua espontaneidade e originalidade, jamais!

Eu já me sentia plena e feliz de visitar o acervo de Picasso, mas no local também havia outra exposição acontecendo. Quando vi as obras me lembrei de amigas artistas que trabalham com fios, linhas, bordados e instalações, acho que iriam amar!

Eu amo a liberdade do comércio local, além de criativos são bem claros sobre os produtos disponíveis. O que seria um absurdo no Brasil, que insiste em manter o tráfico de drogas ativo e forte ao invés de liberar o uso medicinal de Cannabis e regular através de impostos a venda recreativa. Ainda somos muito atrasados em relação aos avanços em outros países e hipócritas também.

Na manhã seguinte peguei o trem até Madrid, um trajeto de quase 3 horas. Café da manhã reforçado e bora para última etapa de minha estadia na Espanha.

Encontrei em Madri minha amiga de longa data Andrea Pascale, ela me recebeu com um café da manhã delicioso.

Após uma breve caminhada no entorno, seguimos em direção a San Lorenzo de El Escorial, onde ela vive. A cidade fica a 50 quilómetros de Madrid, na Serra de Guadarrama. É mundialmente famoso pelo seu imponente Real Monastério, construído no século XVI pelo rei Filipe II e declarado Patrimônio Mundial da UNESCO em 1984.

O local é realmente encantador, um local tranquilo, cheio de história, belos monumentos e jardins.

Já chegamos com fome, porque viajar é sempre uma aventura gastronômica antes de tudo!

Croquetas sempre!

Com direito a uma bela noite enluarada!

Caminhamos pela cidade com os cachorros Benito e Santiago, dois fofos que foram meus guardiões e companheiros inseparáveis durante minha breve estadia.

O local é realmente especial, existe uma aura de espiritualidade, beleza e um ritmo que convida à contemplação e apreciação das coisas simples.

E assim, com a mala cheia de delícias típicas da Espanha, deixei o país que roubou meu coração e me fará lembrar com alegria os dias que vivi minha versão andarilha.

Agradeço muito pela acolhida e por todos os momentos preciosos que vivi em Granada, Málaga e San Lorenzo de Escorial. As fotos, memórias e sabores estão aí para eternizar esses momentos e facilitar uma nova alegria ao ver e rever as pessoas e locais que tive a oportunidade de conhecer. Voltarei com certeza, em breve, se possível! Gracias por tudo!

Regina Proença, filósofa, educadora para paz e viajante andarilha.

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