Som na ca(i)chola, DJ!
por Edgar Domingo de Albuquerque

Estava no carro, seguindo meu caminho para a universidade, ouvindo um roquenrou qualquer. Pensava na fluidez do trânsito. Sofrível fluidez, pois a avenida marginal, de três pistas, num dado momento afunila sob a ponte que cruza o rio Sorocaba, estreitando o caminho. Observava o ir e vir de um sem número de pessoas que dividiam o asfalto comigo naquele momento. Seria o motorista a minha frente algum conhecido? Teria o motorista atrás de mim hora marcada em algum lugar? A moça no carro ao lado, o que estaria ouvindo? Tanta gente, tantos corpos transportados sob o quente sol de uma tarde de inverno. A música chegou ao fim, a rádio fez um intervalo comercial. Na fala do locutor, um evento cujo nome me passou despercebido. Um evento no qual haveria a discotecagem do DJ cujo o nome também me passou despercebido, outro desconhecido para mim. Alternando entre primeira e segunda marchas, a fluidez do tráfego se tornava cada vez mais espessa, viscosa como um brigadeiro de panela que endurece lentamente sob o olhar salivante das crianças à espera na sala de estar. Nesses momentos de imobilidade no trânsito, minha cachola rocinante se põe a mascar algumas ideias…

DJ, o disc jockey. Em outros tempos ele era o piloto das vitrolas. Meu deus, vitrola! Vitrola era coisa de vó, aparato que só perdia em simplicidade para as sonatas com adornos infantis, tais como a sonatinha colorida do Mickey. Pois bem, DJs pilotavam equipamentos mais sofisticados, capazes de produzir efeitos, mesclas sonoras, através da rotação de seus pratos. O DJ era o maestro das pick-ups. Uma à esquerda, outra à direita, um mixer no meio e voilá, o DJ orquestrava a mistura de músicas que nasceram em diferentes momentos, paridas por diferentes bandas, mas que nas mãos hábeis dos DJs, fundiam-se, mixadas, siamesas, num terceiro elemento. Com os dedos pressionando a superfície dos discos de vinil, o DJ controlava a rotação, o tempo, fazendo, inclusive, com que este andasse para trás, o sonho dos autores de ficção científica. Scratches adornavam as mixagens. Rápidas idas e vindas, distorções de um lado ou outro, o scratch arranhando a superfície da normalidade. Eu nunca fui DJ, meu irmão, sim. Tudo o que eu sei sobre mixagens, scratches e pick-ups animando um bando de gente num salão foi vendo o meu irmão discotecando.

Lá na escola do meu bairro, assim como nas escolas de todos os outros bairros – menos a da Ponte – as aulas são assim, discos de vinil. Cada uma tem lá o seu número de faixas, de lições. Quando o disco acaba, a jukebox escolar troca o vinil e uma nova aula-faixa começa. A escola é uma jukebox como a da sorveteria da Ilha Comprida, tem muita diversidade, vai de Queen a Só pra Contrariar em três números. Mas uma jukebox não tem DJ. Entregue ao acaso, as mãos que a cada sinal trocam de disco e tocam aquilo que lhes foi gravado nos sulcos da memória. Em geral, as aulas não são álbuns, carecem de um tema, são compilações aleatórias. Não são como os discos do Pink Floyd. São mais como os discos de novelas, os únicos capazes de enfileirar no mesmo lado do vinil a pegada eletrônica do New Order e um tango meloso na voz do Luís Miguel. É um The Perfect Kiss seguido de Besame Mucho! Veja bem, não sou contra a diversidade, ao contrário, gosto de ser eclético, mas o que falta nas aulas é o DJ, o disc jockey. Salta-se de uma faixa a outra sem maestria. Vai-se do Português à Matemática assim como se vai de um fado do Roberto, o Leal, para o dedilhado frenético do Eddie, o Van Halen, sem sequer um scratchezinho, uma mixadinha, é salto seco. Falta a virada, falta um mixer no meio de uma coisa e outra. É uma diversidade desligada da realidade, como se cada um fosse um ouvinte desligado do palco, do salão, do show. A escola-jukebox tem muitas músicas, mas elas não chacoalham os ossos pélvicos dos esqueletos…

DJs não pilotam mais suas pick-ups. Nem mesmo CDs, cuja curta existência deu lugar aos MP3. Os bolachões hoje são chipezinhos eletrônicos cheios de bits e bytes. As maletas forradas de discos dos DJs foram compactadas em pequenos dispositivos que, espetados em novos aparelhos, permitem que a mixagem prossiga por meio de engenhosos softwares, questão de tecnologia. Tal como trocamos os moinhos de vento por máquinas engenhosas alimentadas pela corrente de elétrons, os mesmos elétrons punham a girar os pratos das pick-ups e hoje fazem bits e bytes viajar pelo ciberespaço e reverberar nas caixas que continuam acústicas, apesar de toda a digitalidade do mundo. Os DJs se adaptaram aos novos tempos. Sim, concordo, há os saudosistas que ainda preferem o bolachão na vitrolinha. É verdade. E, verdade seja dita, uma boa mixagem está na mão do DJ, seja analógico, seja digital. O segredo é o ouvido. Você pode até gostar de um único ritmo e querer ouvir as mesmas músicas de sempre. Mas a jukebox não é o espaço do gosto pessoal. Virtual, a jukebox agora é um App, menos a escola, esta permanece medieval, produzindo os tijolos que fundamentam suas catedrais – ou suas cátedras. A diversidade às vezes nos custa. Custa-nos sair das bolhas, dos comodismos. E há quem reclame. Como eu disse antes, o problema não está na diversidade, mas no salto, no silêncio entre uma faixa e outra. Os reclamões, queixosos, sempre hão de existir. É como conta aquele velho livro: quando deus disse, faça-se a luz, alguém lá atrás gritou, desliga essa porra! E a treta se fez, mas isso é uma outra história. O segredo está na diversidade e na sensibilidade de quem ouve melodias que aparentemente nada tem que ver umas com as outras e as junta na ca(i)chola. A mixagem é a arte do DJ. Arte que pulsa nos ouvidos. Que arranha a realidade. Professores deveriam ser DJs.

Eu, de DJs, sei muito pouco. E o pouco que sei é de ver meu irmão, nos áureos tempos, mixando músicas, juntando Twisted Sister com Pet Shop Boys. Talvez meu irmão não soubesse, nessa época, que o que ele fazia lá nos bolachões de vinil seria o que eu faria nas minhas aulas. Naquela época eu sequer pensava em ser professor e, quem diria, acabei sendo. Comecei sendo professor jukebox, mas tempos depois, quando conheci Deleuze, eu entendi que professores, assim como os DJs, devem ser rizocultores, devem cultivar rizomas. Uns com músicas, outros com saberes, que no fundo, lá debaixo da terra, é tudo a mesma coisa. Com Deleuze, que é o nome de um filósofo, mas poderia ser o nome de uma banda, eu entendi que ser professor é mixar meus conhecimentos, fazendo Matemática com a Língua Portuguesa, fazendo História com a Química, traçando tangentes com orações coordenadas, buscando o sujeito da frase nas camadas eletrônicas do átomo. Ser professor é juntar as aulas em pot-pourri curriculares: as 10 mais da 5a. série B. Mixando aulas sem os saltos, sem sinais, sem pausas, jogando as carteiras para os cantos e chamando a galera para o meio do salão de aula, levando-os ao momento da virada, do scratch que junta a batida do coração com a fina melodia do intelecto, feito Rammstein com notas de Vinícius, o de Morais. O remix que faz os dois Chicos, o Buarque e o Science, dançarem na Roda Viva do Maracatu Atômico, contabilizando as rotações por minuto do planeta no espaço de um olhar 43.

Alguém, lá atrás, meteu a mão na buzina. Tocou o sinal, fim da aula, fim da faixa. Na fluidez das minhas ideias, absorto nos caminhos possíveis dos rizomas, esqueci-me, perdi-me. Nervoso, o reclamão buzinava e gesticulava. Baixei o vidro e gritei: CAETANE-SE! A treta se fez, mas isso é uma outra história…

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Edgar é educador, professor de várias coisas em vários lugares. Mestre em Educação, também estudou Letras e Filosofia. Misturador de tudo o que aprendeu nos discos com o que leu nos livros, escreve para mixar palavras, arranhar a realidade, cavar sulcos na terra, lançando sementes nos campos da mente.

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