Sobre os meus defeitos

Estou longe de ser perfeita. Passo meus dias tentando arduamente corrigir meus defeitos. Trabalho meus talentos de forma independente e vivo em paz com minha consciência. Poderia dar aulas em Universidades, escolas particulares ou idiomas mas como não acredito no modelo existente de educação e no momento nenhuma corresponde ao que acredito ser uma educação boa de verdade, não vendo meus tempo à elas. Quando encontro professores que dão um duro, trabalhando nestes locais e dando um bom exemplo, abrindo a mente de seus alunos, tiro meu chapéu. Eu mesma não tenho este talento, o de ser empregado pelas mesmas instituições que critico. Meu espírito é muito livre para tanto. Talvez por influência de Gandhi, que pedia que os indianos resignassem de seus cargos públicos na época do império britânico pois eles estavam apenas usando-os, tornando possível que a Índia fosse explorada e de certa forma com a cooperação dos próprios indianos.
Mas independentes das escolhas que somos forçados a viver e de como nos sustentamos, acredito que devemos alinhar nossas palavras com nossas ações. Vejo muitos amigos nas redes sociais e no meu círculo social não virtual, apontando o dedo constantemente aos defeitos dos outros, registrando as falhas, postando fotos de flagrantes, etc. Mas nem sempre tem a mesma intensidade em sua própria autocrítica ao apontar suas próprias falhas. Falamos constantemente do quanto os outros não são profissionais, são péssimos pais, maus cidadãos, e nunca observamos que também deixamos pra trás um rastro de promessas não cumpridas, impostos sonegados, pequenas corrupções e palavras que não tem valor.
Nem sempre aquilo que cobramos dos outros estamos preparados para cumprir também. Observo diariamente grandes macacos sentados pesadamente em seus rabos enquanto apontam freneticamente aos rabos alheios. É muito feio isso, sinto-me triste e decepcionada.
Quando decidi ser professora e educadora o fiz com minha alma e coração, dinheiro não entrou nesta equação, mas é muito bem vindo sempre. Não fiz voto de pobreza mas minha riqueza não é ter uma carteira assinada e férias remuneradas. Aliás, eu não preciso de férias, meu trabalho é meu lazer e diversão. Enquanto minha saúde permitir e minha alma estiver disposta eu trabalharei. Até viajando eu trabalho…
Porque ser professor não é um emprego ou um trabalho profissional, é uma disposição de alma. Você é professor, não está professor. Mas quem ensina precisa aprender e por isso estudamos ininterruptamente, ansiosamente, alegremente e até compulsivamente…
Felicidade de professor é encontrar outro professor que saiba mais que ele. Isso nos leva em constante busca. Sem nossos mestres não somos nada. Somos o resultado de todos eles combinados, a gratidão que tenho por ter tido o privilégio de ter encontrado grandes mestres em minha vida é infinita. Desde sempre o destino colocou seres especiais em meu caminho. Um dos primeiros e mais importantes foi o Seu Brito, quando o encontrei já tinha uns 78 anos e há mais de 50 anos era membro da Sociedade Teosófica, sua vida e seus ensinamentos transformaram minha vida e recebi muitas bênçãos através dele. Conviver com ele até o último dia de sua vida aos oitenta e dois foi muito especial. Ele sempre dizia: Não observe o que as pessoas falam, observe o que elas fazem. Falar bonito até um papagaio fala, fazer bonito é muito mais importante. Observe como as pessoas se portam quando estão entre as pessoas simples, seus empregados e animais. Muito se aprende com as ações, as palavras ás vezes são só ornamentos. Não correspondem com a realidade.
Seus ensinamentos ficaram gravados em minha alma e permanecem sendo meu critério para minhas escolhas tanto de companheiros de vida ou profissionais. Isso certamente colocou uma peneira muito fina entre eu e o mundo. Num mundo os discursos se proliferam, mesmo quando escritos de forma bonitinha, não encontram eco na vida real. São apenas ornamentos que ego usa para distrair nosso olhar e iludir os incautos.
Este é um desabafo e também um convite para a reflexão. Que tal antes de apontarmos nossos dedos para falar dos outros não olhamos para nosso próprio rabo e tentamos corrigir nossas ações? Há algumas imagens de Buda onde ele aponta seu indicador para si próprio, mesmo ele sendo Buda, estando desperto, continua a olhar primeiro para suas falhas antes de apontar aos outros.
Não é fácil mudar, não é fácil viver sendo ecologicamente correto, ético, verdadeiro e humilde. São muitas as tentações pelo caminho, poder, dinheiro, vaidade e fama. Mas esses são caminhos tortuosos, se não observamos onde pisamos podemos nos perder e por tudo a perder.
Podemos começar aos poucos, o primeiro passo é pensarmos com nossos corações, nos questionarmos: Quem é este ser que habita meu interior? Como posso ser melhor a cada dia? Fazer o que Gandhi diria ser a unificação de meios e fins. Assim como ele descreve que não há caminho para a paz, a paz é o caminho. Também não há “caminho para o amor, o amor é o caminho”. Isso também vale para a ecologia, ética, verdade, a compaixão e o altruísmo.

Fica aqui a dica, a reflexão, o esporro e o conselho:
Mais ações, menos discursos por favor!

Regina Proença é professora, educadora, mãe, amiga e aprendiz. Graduada em Filosofia, Mestra em Comunicação e Cultura. Atualmente trabalha em seu projeto de doutorado em Medicina estudando os benefícios da Meditação para a saúde. Coordena os projetos de Educação para Paz do Coletivo Cultural Fora da Caixa.

 

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