Sei que não é fácil focarmos em coisas positivas quando somos inundados com tantas notícias ruins. Pandemia, crise financeira, política, insegurança social, emocional e muitas dúvidas em relação ao futuro próximo. O mundo está passando por uma crise que tem muitas facetas, porém nem todas elas são negativas. Vamos olhar para o lado luminoso, quem sabe assim descobriremos que a vida no planeta esteja em plena regeneração. 

Em 1974, o filósofo inglês Alan Watts relatou sua participação em um dos primeiros encontros entre líderes políticos, cientistas e pensadores, que se reuniram para dialogar sobre os problemas iminentes que a degradação da natureza estava apontando. E mesmo reunindo as melhores mentes daquele momento no planeta, a conclusão foi de que eles não sabiam o que fazer para restabelecer o equilíbrio dos ecossistemas; perceberam que a situação caótica não teria como ser impedida se não mudássemos radicalmente nosso estilo de vida e a única possibilidade de restabelecer a qualidade do ar, águas e da terra seria se deixássemos de interferir no curso natural das coisas. A solução seria que parássemos de agir, já que não sabíamos mesmo qual era a melhor maneira de agir. Afinal, a Natureza não precisa de nós – no caso, nossa presença apenas causa problemas; a espécie humana é a única que se deixar de existir não fará falta alguma no planeta, aliás, isso só traria vantagens em todos os ciclos naturais. Sei que este é um golpe duro em nossos egos, pois sempre nos achamos “seres superiores” e “por direito” fazemos que tudo gire em torno de nossas vontades e nossos umbigos. Justificamos nosso antropocentrismo com escrituras religiosas, teorias científicas distorcidas e mesmo assim não entendemos que tratam-se apenas de palavras, que em nada mudam a realidade do mundo. 

Em pouco tempo de isolamento social, o planeta dá sinais de recuperação: o ar está menos poluído, podendo-se ver até os Himalaias a partir de cidades que há mais de 25 anos não tinham esta visão;os canais de Veneza estão claros e transparentes revelando a presença de golfinhos e águas vivas; os pássaros estão cantando em cidades onde só se ouvia o barulho dos carros; a Baía de Guanabara está limpa e foram avistadas até tartarugas nadando tranquilamente; o silêncio foi notado pelos cientistas que medem os abalos sísmicos; as estrelas podem ser vistas em todo seu esplendor nas noites de outono. A natureza está respirando e parece até nos agradecer pela trégua. 

O sofrimento também traz à tona, muitas vezes, o melhor dos seres humanos: a solidariedade, a empatia e a compaixão. Ao olharmos para nossos entes queridos, amigos e mesmo desconhecidos como merecedores de cuidado, respeito e apoio, temos uma grata surpresa: isso nos faz bem! Ajudar o próximo nos dá uma alegria que enche nosso coração e favorece nossa saúde emocional e física. Percebemos que somente quando somos generosos, a felicidade é duradoura. A vida ganha novas cores e significado, o sentimento de irmandade nos salva do egoísmo e da decadência moral.

Há muitas lições sendo aprendidas por nossa espécie, infelizmente nem todos terão esta percepção, mas os que estiverem atentos perceberão que, junto com a regeneração da natureza, nós também estamos nos regenerando; somos interdependentes, interconectados com tudo o que vive, responsáveis pela evolução ou destruição de nossa casa mundial. O vírus não é nosso pior inimigo, nem o mais letal, o que mais mata é a ignorância, a ganância e a falta de amor.

Espero que as reflexões trazidas por esta pausa nos transformem em seres mais humanos, mais éticos e conscientes de nossa parcela de responsabilidade pela qualidade de vida no planeta. Grandes mestres ficaram e ficam anos em isolamento, retiros nas montanhas, cavernas e mosteiros, dali eles saem empoderados para ajudar o mundo a despertar para o bom, belo e justo. Aproveite esta oportunidade e seja sua melhor companhia, cuide de si e de todos. Leia, medite, arrume a casa, as gavetas, ponha em dia suas séries, filmes e, se possível, refaça os laços de amor e amizades. Aprenda a divertir-se sozinho. Como diz o ditado: “Quem sabe rir de si próprio nunca para de se divertir!” Logo as normas de isolamento serão relaxadas, as atividades do cotidiano serão retomadas. Não desperdice seu tempo com bobagens, para que quando isso acontecer você volte melhor do que antes para sua rotina.

Carpe diem!

Regina Proença 

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One thought on “Para além do momento

  1. Oi Re, gostei muito do seu texto, compartilho da ideia de que estamos tendo a oportunidade de repensar muita coisa. Gostaria de estar mais disponível e produtiva, não é o que está acontecendo, mas faz parte do meu processo aqui e creio que outras pessoas também estejam se sentindo incomodadas com a falta de tempo, energia e disposição. Quer saber? Tá tudo bem (falar é tão fácil!!!)

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