Narrativas de Viagem – Índia 2019

Saudações aos viajantes, peregrinos e a todos que têm a alma livre e voam na imaginação para os lugares mais remotos e encantados!

Cheguei de uma longa viagem na semana passada e, apesar de feliz, o cansaço de muitas horas sentada, em carros, trens, eventos e avião fizeram um estrago em meu nervo ciático e a dor me impossibilitou de começar os escritos antes. Acho importante fazer um relato sincero desde o início, já que estou aqui fazendo um convite aos amigos e leitores de nossa revista para conhecerem as minhas impressões sobre os lugares que visitei e sobre nossa participação no lançamento do SEE Learning, com a presença dos educadores e pesquisadores mais renomados do mundo e Sua Santidade Dalai Lama. Nem tudo em uma viagem é glamour – as dores físicas e de alma também serão relatadas e fazem parte do processo. Cada um dos acontecimentos será relatado separadamente com vídeos e imagens que transmitem um pouco de minha experiência. Apenas uma parte poderá ser compartilhada pois a Índia é um país intenso; a mistura de aromas e sons, o cheiro de massala no ar, de esgoto e incenso não tem como explicar, só sentindo no local. Nossos olhos, ouvidos e nariz são convocados o tempo todo e um pequeno trajeto de tuktuk ou a pé pode nos trazer dezenas de sensações que variam entre alegria, tristeza, indignação, reverência, respeito, nojo e arrebatamento. Um verdadeiro turbilhão de emoções!

Peço apenas que tenham paciência pois refazer mentalmente o trajeto, rever as fotos, vídeos e emoções podem levar um tempo, cada local merece ser mencionado com o devido respeito e riqueza em detalhes. A primeira narrativa será sobre a visita à casa de Mahatma Gandhi em Nova Deli – a casa onde ele viveu seus últimos dias antes de ser assassinado. Visitar sua casa foi uma emoção muito forte para mim, que há muitos anos sinto-me conectada com seus ensinamentos. Ver seus pertences, andar por onde ele caminhou e contemplar seus jardins foram um presente para minha alma.


GANDHI SMRITI

A casa de Mahatma Gandhi fica na parte nova da cidade de Nova Deli, com avenidas largas, arborizadas, lindas praças com chafarizes e muitas flores coloridas. Fica evidente a influência dos ingleses nesta parte da cidade, onde tudo é mais organizado, limpo e arquitetonicamente planejado. Em contraste com a parte antiga, até parece que você está em outra cidade.

A casa é branca, arejada e com um belo jardim. Seu quarto não tem ornamentos, há apenas sua cama, um exemplar do Bhagavad Gita e a escultura com os três macaquinhos. O caminho que ele fez pela última vez até o jardim onde faria as preces coletivas foi marcado com suas pegadas e me causou grande emoção percorrer aquele trajeto. Muitas fotos com seus ensinamentos, encontros com pessoas notáveis e a reprodução com bonecos de algumas das cenas mais importantes de sua trajetória compõem o museu.

Há também uma biblioteca, loja e livraria, com um acervo incrível de obras de sua autoria, bem como de outros pensadores que se afinaram com a filosofia da não-violência e satyagraha. Aproveitei para adquirir várias obras que servirão de material de estudo e referências para nossos projetos. A energia do local e a gratidão pela oportunidade de estar ali invadiram meu coração e passei a maior parte do tempo em oração e meditação. Foram muitos anos antecipando este momento e estar ali teve um significado muito profundo para mim. As imagens e vídeos ajudam a transmitir um pouco do ambiente encontrado ali.

Nova Deli é uma cidade com muitos contrastes – a parte antiga da cidade é repleta de vielas, ruas apinhadas de gente, vacas, cachorros, sujeira e entulho. Não há calçadas e as pessoas se misturam com os carros, tuktuks, ônibus, carros de boi, riquixas, motos e mais gente. É uma confusão e um barulho ininterrupto de buzinas. O impacto aos que chegam na cidade pela primeira vez é imediato, não tem como ficar indiferente neste país. A forma como as pessoas interagem no trânsito desafia qualquer lei da física, e é uma lição de aceitação, tolerância e fluxo contínuo… O trânsito flui sempre, não importa o que aconteça – pode ter vaca, gente, carro, buraco e tudo mais que existe, mas nada impede o fluxo de carros e pessoas. O mais interessante é que eles não reclamam, não brigam e nem se matam. Estão sempre de bom humor e nos tratam com cortesia. Quando comentamos sobre a condição do trânsito normalmente, eles riam e um deles chegou a afirmar que o tuktuk é o helicóptero da Índia. A sensação para quem está no meio da muvuca é uma mistura de montanha russa com trem fantasma: no final é divertido, mas na hora você acha que vai morrer. Mas, como tudo na vida, acabamos por nos adaptar e até achar graça. Bate no peito uma dor quando vemos de tão perto a miséria, as pessoas morando no lixo, esmolando e visivelmente passando fome. Alguns vão dizer que aqui também temos tudo isso, mas lá somos colocados no centro do furacão toda vez que colocamos nossos pés na rua. Não tem como não se sentir tocada e pensar como somos privilegiados em muitos momentos. É impressionante como o sublime e o grotesco convivem em harmonia a cada esquina.

O colorido das bancas de frutas, os locais de comércio, as flores, especiarias e templos se espalham na cidade. Não tivemos muito tempo livre para conhecer todos os templos e jardins, mas fiz uma coleção de registros que retratam diferentes locais da cidade, do bonito ao horrendo. Não acho justo mostrar apenas um lado deste país tão multifacetado. A visão nua e crua pode ser até cruel, mas é honesta.

Os indianos sabem verdadeiramente o significado da palavra hospitalidade. Em todos os locais – hotéis, lojas, ruas, templos e restaurantes – fomos tratadas como rainhas, sempre com cortesia e bom humor. Por diversas vezes, fomos surpreendidas por gestos de carinho e atenção que levaremos para sempre em nossos corações. Nem todos os indianos falam bem inglês e muitas vezes tivemos que confiar em nossas habilidades de mímica para explicar o que queríamos. No comércio se revela a sagacidade dos indianos, barganhar constantemente é necessário e, se você não for bom comunicador, acaba pagando tudo mais caro. Felizmente, eu já sabia disso e consegui negociar preços em praticamente todos as circunstâncias.

Deixo vocês com as imagens e vídeos de Nova Deli, seus encantos e desencantos. O lado pobre e o rico, lado A e B. Espero que gostem! A segunda narrativa será sobre o evento de lançamento do See Learning.

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