Cuidado com o vazio de uma vida cheia…

Sempre que chegamos ao final do ano, a situação se repete. Para alguns, as férias são possíveis. Para outros, forçadas. As mudanças trazem também alterações que revelam nosso estado de espírito. Estamos tão acostumados com a correria de tudo que quando a rotina da casa se altera, permitindo às crianças e jovens ficarem mais tempo em casa com os pais, isso deveria ser bom, mas também pode ser razão de estresse pois apenas ficar em casa e conversar, relaxar, brincar, dormir, assistir um filme comendo pipoca, parece não satisfazer as emoções que estão disponíveis no mundo virtual. Desaprendemos como ficar juntos apenas pelo prazer da companhia, fazer nada juntos, quem neste mundo de ocupações constantes se dá este luxo?

Crianças, jovens e seus pais estão tão viciados em tecnologia que, mesmo quando compartilham o mesmo espaço, ninguém está com ninguém, todos estão com a atenção nos equipamentos eletrônicos, celulares, tablets e vídeo games, que são praticamente onipresentes em todos os lares e lugares. E o pior, quando estamos com a pessoa ali em nossa frente, continuamos com nossa atenção dividida. Basta observar uma praça de alimentação num shopping – as pessoas estão almoçando com seus celulares, o outro está ali, mas não é contemplado e apreciado integralmente. Tem coisa mais triste que ter que concorrer com um aparelho? Se a sua presença não for boa o bastante para seu companheiro (a) desligar-se de suas redes sociais por alguns minutos para apreciar sua companhia, não posso acreditar que há verdadeiro amor e respeito ali. Não podemos culpar aparelhos, que nós mesmos introduzimos em nossas vidas, como responsáveis pelo isolamento e falta de diálogo entre as pessoas, afinal, quem manda em quem? Quem é o escravo aqui?

Estamos gastando um tempo que não temos em atualizações desnecessárias e superficiais ao invés de usarmos o nosso bem mais precioso em experiências reais com afeto, toque e sentidos envolvidos. Temos que encarar os fatos: estamos viciados! É muito fácil se dar conta disso, por exemplo quando temos um problema no fornecimento de energia devido à chuva ou ficamos sem bateria no celular. A angústia e a sensação de abstinência podem gerar um estresse no organismo similar à ausência de drogas. Faça o teste, desligue ou silencie seu celular e observe quanto tempo você ficará sem pensar ou buscar alguma atualização em suas redes sociais. Aquilo que foi criado para nos libertar é justamente o que nos escraviza. Ainda vamos perceber o óbvio: estamos doentes e precisamos achar uma cura, um equilíbrio na forma que gastamos nosso precioso tesouro, nosso tempo. A Natureza é nossa maior aliada, mas não acredito que faremos um retorno em massa para o campo ou cavernas em geral. Somos capazes de encontrar este caminho do meio, partindo de onde estamos.

Precisamos, literalmente, ficar atentos – a atenção é o que faz a diferença. Todas as técnicas de meditação nos trazem para o momento presente, sem distrações, sem culpa e, principalmente, nos revelam a grande dificuldade que temos em simplesmente ESTAR AQUI. As práticas são, por vezes, muito perturbadoras, ao invés de relaxantes, pois quando observamos o estado de nossa mente, fica impossível ignorar o fato de que “há um elefante rosa na sala de sua mente”; surgem sentimentos inquietantes e se tornam óbvias nossas compulsões, medos, tédios e ansiedades. No silêncio da meditação, esses incômodos afloram e crescem à medida que ficamos ali parados. Somente a força do coração pode nos levar além destas experiências iniciais da prática. Sim, é preciso ter coragem para encarar nossa alma, o lado sombrio e a luz são dois lados de nossa mente. Somente quando aceitamos e abraçamos nosso ser integralmente é que podemos nos sentir plenos. Já somos perfeitos, iluminados e puros, mas ao atravessar o mundo, fomos nos distraindo pelo caminho, nos perdemos e ficamos exilados; perdemos nossa conexão com nossa “innernet”, nossa rede interior de navegação. Se consultássemos nosso coração tanto quanto consultamos o Google em busca de conhecimento, já seríamos sábios! Buscamos fora aquilo que se encontra dentro. Damos uma volta imensa e não sabemos onde queremos ir ou chegar, nos distraímos no caminho e perdemos o foco na missão. Assim, perdemos tempo, pessoas, amores e oportunidades, simplesmente por estarmos olhando para a tela de nosso celular ou para o nosso umbigo. Tanto faz.

Um novo ciclo se inicia, aproveite a energia do começo do ano para rever seus conceitos, mudar hábitos e buscar aquilo que lhe faz feliz.
Pessoalmente, não sou de fazer nenhuma resolução de final de ano, prefiro realizar uma revolução permanente. Assim, mantenho minha chama acesa e não perco o foco da missão: ser feliz!

Todos podemos mudar, iniciar um ano com atitudes elevadas, mudar hábitos e prestar mais atenção em seus corações e mentes. Saia do celular e conecte-se com você mesmo! Revolucione-se!

Regina Proença é filósofa, tradutora e coordena os projetos de Cultura de Paz no Coletivo Cultural Fora da Caixa.

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