A REVOLUÇÃO DO CORAÇÃO

“Como a ciência pode nos tornar mais compassivos?”

Essa é a pergunta que busco me debruçar. Pesquisadores e buscadores espirituais do mundo todo desejam essa resposta. Qualquer pessoa hoje que faça regularmente alguma prática meditativa, sente os benefícios que elas promovem. Não muito tempo atrás estas práticas estavam restritas aos círculos budistas, praticantes de yoga ou pessoas que buscavam religiões orientais. Enfim, não era uma busca por saúde, bem estar ou um tratamento prescrito como complementar por médicos convencionais.

Isso está mudando, e rápido. Hoje encontramos a palavra mindfulness e meditação em milhares de artigos científicos de grande importância, bem como na TV, internet, jornais, revistas e conversas cotidianas. A popularização destas práticas deve-se provavelmente aos resultados relevantes nos tratamentos de depressão, ansiedade, stress, adições, fobias entre muitas outras.

A segunda pergunta que me acompanha é “Como a espiritualidade pode nos tornar mais científicos?”.

A ciência é guiada pelo estudo da matéria, as experiências revelam muito de nossa composição, mas não conseguimos alcançar os níveis mais sutis dos fenômenos e a essência da realidade. O estudo sobre a mente, a matéria e a espiritualidade simultaneamente possibilita uma expansão de conhecimentos, torna-se uma reflexão sobre novos paradigmas.

A motivação para estes estudos, e particularmente a minha pesquisa de doutorado, é abrir nossas mentes e corações. Abrir novos horizontes para uma Revolução do Coração. É chegado o momento de fazer uma transição de valores, de ser a mudança que desejamos ver no mundo, como diria Gandhi. Através da pacificação da mente e coração, podemos alcançar mudanças internas e beneficiar a comunidade como um todo.

Estes estudos se baseiam na nova ciência moderna, que engloba a física quântica, neurociência, pesquisas sobre a consciência, filosofia, aplicação de Mindfulness ou meditação nas áreas da saúde e educação. As observações sistemáticas foram documentadas de forma ampla e com exames detalhados tanto clínicos como de imagens das mudanças ocorridas no cérebro.

Acredito que nosso corpo é apenas uma parte de um imenso holograma cósmico, como no mito da Rede de Jóias de Indra, ou como um salão de espelhos, quando mudamos ou brilhamos em uma das partes, todas são afetadas. Estas mudanças interferem nos campos mórficos à nossa volta que se comunicam e promovem uma elevação do padrão energético, quanto mais e melhor praticamos, maior a influência no todo.

Esse é o fundamento de nosso programa de Educação para Paz que entre outros estudos, realiza um módulo sobre Meditação – Ciência e Consciência. Durante os encontros refletimos e buscamos despertar virtudes, introduzindo práticas que estimulam a cooperação, empatia, compaixão e ações altruístas, com o intuito de provocar as conexões neurológicas que promovem a felicidade.

Como diria Aristóteles: “A virtude é a maneira de ser, adquirida e duradoura, é o que somos (logo o que podemos fazer), é nossa capacidade de agir BEM. É uma disposição adquirida de fazer o Bem. O Bem não é para se contemplar, é para se fazer. A virtude é o esforço para se portar bem. É a Moral Prática. São nossos valores morais vividos em atos”.

Como procedemos?

Realizamos as práticas e abordamos em nossos encontros os dados de pesquisas sobre Altruísmo e Neurociência. Aplicamos os questionários de quantificação de Mindfulness, de “Meditação e controle de Estresse”, “Auto-compaixão, compaixão e burnout” e sócio-demográfico. Aprendemos sobre como nosso cérebro funciona, como se modifica através das novas conexões que as práticas contemplativas produzem devido à neuroplasticidade e os efeitos positivos que a prática e comportamentos generosos podem nos trazer. Afinal, são eles que produzem no organismo o sentimento de felicidade.

As áreas do cérebro envolvidas na produção de sentimentos de bem estar, concentração, contentamento que são ativados pela meditação podem promover mudanças permanentes e se tornarem uma forma de ação no mundo. Quando exercitamos simultaneamente a criatividade, a meditação e as boas ações, aumentamos e muito nossa imunidade, sanidade e cultivamos o sentimento de auto realização que só uma vida com propósito pode nos oferecer. Vivenciamos durante os encontros dinâmicas e práticas de empatia e compaixão.

Empatia e compaixão

Às vezes achamos que estas palavras são sinônimos. Embora elas se complementem, quando avaliamos um sentimento compassivo, ou altruísta, observamos diferentes conexões neuronais e consequentemente os efeitos físicos também são distintos. Nossa ação empática pode esconder ás vezes um altruísmo egoísta, que visa apenas o alívio da angústia e do sofrimento que o outro lhe causa. Como uma troca, eu ajudo o próximo para que eu me sinta melhor, assim sua motivação ainda pode estar contaminada. Para que o benefício da ação altruísta aconteça é preciso estar engajado e motivado a alcançar o outro de fato. Desenvolver a habilidade da escuta, de concentração e a criatividade também podem ajudar na produção de conexões favoráveis a sua felicidade.

Acreditamos que a imaginação vem antes da criação, então podemos e devemos cultivar o potencial imaginativo seja através das práticas ou pela arte, só assim será possível criar um futuro melhor. Os seres humanos são os únicos com esta capacidade, porém essa capacidade por ser canalizada para problemas e obstáculos gerando um impacto negativo em nosso sistema. A energia que poderia ser utilizada de forma benéfica e útil acaba por nos fragilizar e adoecer. Por isso é tão importante observar nossos pensamento e sentimentos, as conexões que são feitas habitualmente irão se consolidar e impedir que nossa mente se expanda e ative circuitos virtuosos.

Nosso próximo questionamento é: Como podemos aplicar a compaixão e a consciência na educação de jovens e adultos? Conhecemos as estratégias que devemos estimular então o próximo passo é colocar a energia em ação para obter resultados concretos. A combinação de informações científicas, filosóficas associadas à prática regular da atenção e presença nas atividades cotidianas, bem como o sentar para meditar compõem os elementos necessários para uma profunda revolução. Esta não é apenas uma mudança de hábitos, como ir à academia ou caminhar, ela acontece no órgão que “pensa profundamente”, a sede da mente para os orientais: o coração.

Como abrir a mente e o coração?

Para atingir o estágio de contentamento e felicidade o indivíduo terá que ir além das palavras, partir para a ação. Contribuir de forma ativa na comunidade com ações de gentileza, a partir de iniciativas locais, assim seu aprendizado se dará internamente e abrirá as portas do coração. Quando introduzimos valores humanos em nossa vida diária isso acaba se traduzindo em ações no âmbito social, projetos de educação, cuidado e voluntariado. O coletivo cultural Fora da Caixa atualmente orienta e supervisiona cinco projetos que são frutos do programa de Educação para Paz, entre eles estão aulas de Informática, Inglês, Reforço Escolar, Atendimento Solidário e arrecadação de livros e alimentos. Precisamos mais de ações que de discursos, as ações deixam marcas profundas como a água que corre entre as pedras, abrem um caminho para que a vida flua constantemente, sem obstáculos, se adaptando sem se perder.

Como salientava o filósofo Epicuro: “Que importa o verdadeiro, se não sabemos viver? Que importa a justiça, se somos incapazes de agir justamente?”. Através de nossas ações de hoje é que criamos o futuro e para isso precisamos escolher prudentemente nossas ações, verificar o que é melhor para “nós” e não apenas para “mim”. Mais uma vez seguimos o conselho de Epicuro: “É a prudência que leva em conta o futuro. Virtude presente mas previsora ou antecipadora. O homem prudente é atento, não apenas ao que acontece, mas ao que pode acontecer. Virtude da duração do futuro incerto, do momento favorável, o kairós dos gregos.” Sejamos prudentes então!

Motivação Correta

Mesmo que inicialmente você tenha uma motivação egoísta, de melhorar a sua própria vida em primeiro lugar, não há problemas com isso. Ás vezes achamos mesmo que estamos tão fragilizados que não teremos condições de ajudar outras pessoas, mesmo as mais próximas. Tudo bem, o ponto de partida pode ser este, mas a partir do momento que suas motivações incluírem os outros, que suas ações mesmo que simples, alcancem a vida de mais pessoas, seu avanço será muito mais rápido e eficaz. É o que dizem as pesquisas científicas! Quando despertamos nossa “ambição espiritual” como diz Matthieu Ricard, nossa “inveja sagrada” e nos tornamos altruístas nossa vida floresce.

A motivação do altruísta de acordo com Daniel Batson deve ter como finalidade “aumentar o bem estar do outro”. Para Kristen Monroe da Universidade de Irvine na Califórnia “boas intenções não bastam, é preciso agir, mesmo com um risco, a ação deve contribuir objetivamente para o bem do outro”. Porém o altruísmo não exige “sacrifício” e não perde sua validade se vier acompanhado de um sentimento de profunda satisfação.

Outro dado interessante é que apesar de nossa sociedade promover comportamentos de competição, aquisição de coisas e individualismo. As pesquisas de Tim Kasser da Universidade de Rochester que estuda o quanto as pessoas que foram bem sucedidas materialmente são felizes, revela que as pessoas que concentraram sua energia na aquisição de coisas encontram-se menos satisfeitos com suas vidas. Preferem a competição ao invés da cooperação, não se preocupam com questões ecológicas ou sociais. Possuem relações afetivas frouxas e menos amigos de verdade. Tendem a ter menos empatia e utilizam os outros como meios para atingir seus interesses. São grandes consumistas e egocêntricos. Entre este grupo é alto o índice de depressão e suicídio.

Hoje 40% dos dias não trabalhados por incapacitação estão relacionados a doenças mentais: depressão, ansiedade, stress, fobias, adições e compulsões. Nossa mente pode ser nossa melhor amiga mas também pode ser a pior inimiga.

Considerações sobre o Altruísmo

O altruísmo é uma disposição momentânea ou um traço de caráter? Podemos ensinar alguém a ser altruísta? É possível ensinar alguém a ser virtuoso? Como motivar alguém a introduzir ações engajadas e altruístas? Para Spinoza “Não há virtude natural.” Logo é preciso “tornar-se virtuoso” – é fazendo que aprendemos. Aristóteles ao falar de como ser virtuoso pontua: “É praticando ações justas que nos tornamos justos. É praticando ações corajosas que nos tornamos corajosos”. Quando nos voltamos a Darwin encontramos traços do que ele chamou de uma sociedade de “supercooperadores”, e nossa evolução nos mostra que o “altruísmo expandido” que transcende os membros da família e tribo, foi de grande importância na evolução das culturas, sendo essa transformação mais rápida que as mudanças genéticas.

Como aumentar nossas habilidades e melhorar nossa saúde?

Como podemos libertar nossa mente? Comece pequeno, mas comece. Alguma coisa é melhor que nada. Não podemos mais ficar “pensando” em fazer algo, mudar exige atitude, determinação. Existem caminhos seguros que podem ser trilhados, busquem encontrar aquele que lhe traga inspiração, os passos começam de onde você está.

“Cabe-nos encarnar, em nosso ser e nossos comportamentos, o altruísmo que desejamos encorajar – o mensageiro deve ser a mensagem” – Matthieu Ricard

 

Referências
O cérebro de Buda – Rick Hanson e Richard Mendius, Editora Alaúde
A revolução do Altruísmo – Matthieu Ricard, Ed. Palas Athena
Mind and Life Institute – Encontros entre o Dalai Lama e cientistas

 

Regina Proença é filósofa, aprendiz e praticante de meditação desde 2003. Atualmente trabalha em seu projeto de doutorado estudando os efeitos da prática de Mindfulness em pacientes diabéticos e hipertensos na UBS do Cerrado em Sorocaba. Coordena os projetos do Coletivo Cultural Fora da Caixa.

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