IIPE – Granada – Um encontro de corações

Fica muito difícil colocar em palavras a emoção de participar desse encontro na Universidade de Granada, Espanha. Primeiro porque quando pensamos em um encontro de educadores para paz, organizado pelo International Institute on Peace Education é algo que apenas quem já teve alguma experiência prévia com essa comunidade de aprendizado pode imaginar. Usualmente os encontros entre educadores, acadêmicos e pesquisadores já denotam uma certa rigidez e o formato de Simpósio, Conferência ou algo parecido nos vem à mente. Então, não é nada parecido com isso. O formato e a pedagogia que é aplicada neste caso não se compara a outros encontros, são apenas 60 participantes (foram mais de 200 inscritos mas o número de selecionados faz parte da pedagogia e processo de trabalho). Reunidos por uma semana em um modelo residencial, onde comemos juntos, refletimos, convivemos, criamos laços e amizades que deixam nosso coração pleno e contente. É como uma grande tribo vivendo emoções juntos e recebendo a energia de nossos ancestrais, celebrando as conquistas individuais e compartilhando o melhor que temos a oferecer ao grupo em cada momento.

Eu já havia me encantado com essa comunidade quando participei há dois anos do encontro realizado no Nepal, contei minha experiência em um relato afetivo que pode ser lido através do link:
IIPE – Nepal – Uma Experiência Extraordinária

Desta vez o encontro foi na Universidade de Granada, uma das mais tradicionais da Europa, ela foi fundada em 1513 e continua sendo uma das mais importantes referências de qualidade e excelência desde então. Ficamos hospedados em uma das cinco unidades, com todo conforto e assistência completa.

O prédio com os dormitórios tinha uma vista linda, o ambiente interno estava super organizado com diferentes salas e locais para realizarmos as atividades, o refeitório era ótimo, todas as refeições e lanches durante os intervalos estavam deliciosos!

Na verdade comemos até demais, com tudo tão gostoso e uma variedade de comidas típicas da gastronomia espanhola que era uma tentação, acredito que poucos conseguiram resistir…

A pedagogia do encontro proporciona uma interação informal entre os participantes desde o início, sem falar que na noite anterior ao início do programa tivemos o jogo final da Copa do Mundo, a torcida pela Espanha nos uniu e a festa da vitória foi linda! Se havia alguma barreira cultural neste momento ela se dissolveu, estávamos unidos na torcida e no sofrimento da partida.

Encontrar amigos que estiveram no Nepal e em outras edições é uma alegria adicional, há algo inexplicável que acontece quando estamos juntos, uma força poderosa de amor, acolhimento, respeito e admiração nos aproxima e temos a certeza de que essas amizades serão levadas para a vida toda. É um fato!

O World Café é uma das primeiras atividades, reunidos em grupos que se intercambiam, são apresentadas as principais reflexões que iremos realizar durante os encontros e  os insights são compartilhados de forma lúdica e criativa.

Entre as atividades que acontecem pela manhã estão as sessões plenárias, onde o grupo todo se reúne e temos três participantes apresentando seus projetos, propostas e reflexões. Aprendemos a ouvir e formular coletivamente perguntas que surgem a cada apresentação, mais do que buscar respostas, essa forma de explorar os temas e manter viva a curiosidade e a reflexão coletiva é algo precioso, Em tempos onde somos engolidos por tantas informações, cada vez menos temos uma escuta profunda e produzir uma reflexão coletivamente é algo que pouco se vê em encontros de natureza acadêmica. Particularmente, eu não consigo me identificar com esse formato mais rígido, acho muito cansativo e improdutivo, quando vou aos encontros em universidades acho todas as apresentações rápidas demais e quase ninguém tem tempo de interagir ou fazer perguntas aos palestrantes. Além do pedestal que são colocados alguns acadêmicos, o que impossibilita um acesso fácil e informal, o ego é mais celebrado do que o conteúdo em si. Mas essa é só a minha opinião, muitos apreciam, eu não.

A programação também inclui workshops, diversas propostas acontecem simultaneamente, é difícil escolher em qual participar, são tantos assuntos interessantes e pessoas incríveis que ficamos sempre curiosos em saber como foram aqueles em que não estivemos presentes. Isso também possibilita a todos os que estão apresentando tenham um público diferenciado, grupos menores proporcionam uma interação mais profunda, uma escuta de qualidade e o resultado é sempre interessante.

Apresentamos em um workshop a metodologia que desenvolvemos em nosso programa de Educação para Paz em parceria com o Educandário e Instituto André Luiz, ficamos muito honrados em estar ali e apresentar nossas idéias e resultados entre educadores tão comprometidos e interessados em nosso trabalho.

Os workshops que pude participar foram incríveis, inspiradores e curativos.

A cultura e o entorno da cidade de Granada também foram explorados em nossa programação, fizemos uma caminhada cultural pelas ruas da cidade, visitamos pontos importantes que representam o mosaico cultural e religioso da cultura local. A beleza e diversidade de Granada nos encantou.

Após a caminhada visitando locais na região de Albaicín, com uma belíssima vista de Alhambra, chegamos a uma das residências de estudantes da Universidade de Granada. A propriedade é encantadora, todos puderam se refrescar com um vinho ou cerveja gelada, afinal a subida foi intensa e em meio a uma onda de calor, nosso grupo estava mesmo precisando de um refresco. A brisa fresca do local e a vista privilegiada foi um bálsamo que estávamos precisando! Música, risos e conversas boas estavam presentes!

Nosso grupo foi convidado a participar do lançamento de um Manifesto pela Paz na comunidade de La Alpujarra, onde as pessoas de Pitres, Capilerilla, Mecina, Mecinilla, Fondales, Ferreirola e Atalbéitar se reuniram para lançar o manifesto  Pueblos por la Paz e organizaram um festival em La Tarra. O encontro teve início na Prefeitura da cidade e contou com a presença de pessoas importantes para a comunidade e também de David Adams que estava junto de nosso grupo e também está lançando no Brasil um Manifesto pela Paz. Você pode assinar e seguir o movimento através das redes sociais @activatingpeace

A união de sentimentos e a busca por uma cultura de paz que repudie as injustiças e as guerras é um apelo que nos fortalece enquanto humanidade e agentes de paz. Mais do que falar sobre o que desejamos ver no mundo, estamos, cada um em seus países e comunidades, plantando as sementes da convivência harmônica, justiça social, desmilitarização, acolhendo refugiados, cuidando de pessoas em situação de vulnerabilidade, vítimas de conflitos armados, promovendo cursos, reflexões e atuando diretamente na promoção da educação para paz. São contextos diversos, mas a busca de paz e não violência nas relações transcende as diferenças culturais.

Nosso grupo em La Taha

Visitamos uma comunidade Agroecológica que busca resgatar as técnicas ancestrais de cultivo e revitalizar as fontes de água da região. Tivemos uma extensa apresentação sobre as ações e como eles estão gerando renda e cuidando da natureza ao mesmo tempo.

Esse dia ainda reservava muitas surpresas, o festival organizou na praça um almoço comunitário onde uma paella foi servida aos participantes ao som de música tocada por um grupo de mulheres.

Mais tarde assistimos uma apresentação na igreja do local de uma violoncelista maravilhosa que nos encantou com seu talento executando obras de Bach. Foi muito emocionante e intenso, estar ali, ver uma comunidade unida, pulsante e cheia de alegria, preenchendo nossa alma e coração de esperança nos deixou preenchidos de boas energias. Lágrimas de agradecimento, alegria e bênção brotavam da alma.

E teve mais, voltamos ao pueblo e após um breve descanso e parada para refletir em grupo, subimos a colina em direção ao topo onde a última parte de nossa visita aconteceria. Ali a comunidade organizou um evento ao ar livre com comidas típicas, bebidas geladas, feira de produtos típicos e uma apresentação de música flamenca fusion, performada apenas por mulheres, um verdadeiro deleite. Tudo feito a partir da iniciativa e trabalho voluntário da comunidade, onde todos ofereceram seu tempo e talento para que tudo pudesse acontecer e foi lindo! Amamos! Partimos exaustos pelo longo dia, mas com o coração, alma e estômago repletos de coisas boas!

Foi um dia memorável, daqueles que ficarão gravados na memória para sempre. Estou aqui evitando mencionar os nomes dos amigos que fizemos ou reencontramos pois seria injusto mencionar alguns e não outros, seria uma longa lista. O carinho, admiração, cumplicidade nas opiniões, piadas e reflexões teriam alongado o relato em inúmeras páginas. Mesmo assim correria o risco de faltar algum detalhe, por isso estou me atendo a minha percepção de como foi essa experiência para mim. Tenho certeza que ainda assim minha descrição está incompleta. Me perdoem se deixei algo de fora que merecia ser mencionado mas o artigo já está imenso, para descrever mais detalhes seria necessário um livro!

Nossa visita também gerou notícias na mídia local

Encerramos nossa residência de uma semana com uma grande festa, cheia de alegria, apresentações dos grupos de reflexão e também contribuições individuais na noite cultural.

Após essa experiência de convivência intensa, aprendizados em comunidade e muito afeto, é sempre difícil se despedir. Todos se sentem membros de uma grande família, juntos rimos, choramos, brincamos e celebramos o que há de melhor na vida! Já estamos com saudades mas as conexões verdadeiras não são perdidas com a distância ou o tempo, elas se alimentam da vontade de se reencontrar novamente. Em nosso caso, possivelmente nos encontraremos no próximo IIPE que será sediado na Coreia do Sul.

Tivemos a alegria de por uma breve janela de oportunidade durante o encontro nós gravamos uma breve entrevista com a delegação que irá sediar o próximo IIPE 2028.

Assista a entrevista:

Vídeo de apresentação do  local onde será o próximo IIPE

Até lá estaremos juntos online, em breve lançaremos em nosso site a série de entrevistas Conversas Fora da Caixa em parceira com o HOPE – Humans of Peace Education e traremos para mais perto as reflexões e o brilhantismo desses educadores que estão fortalecendo a Cultura e a Educação para Paz nos quatro cantos do mundo! Aguardem!

Meus queridos irmãos e irmãs do IIPE, vocês são uma luz nesse mundo cheio de desafios e mostram que o coração e a comunidade é o elo mais poderoso que existe! É honra fazer parte dessa comunidade encantada!

Gratidão, admiração e respeito infinito à todos vocês!

Sintam-se abraçados!

Regina Proença

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