{"id":942,"date":"2017-04-24T12:00:16","date_gmt":"2017-04-24T15:00:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/?p=942"},"modified":"2018-07-31T11:24:19","modified_gmt":"2018-07-31T14:24:19","slug":"joaquim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/joaquim\/","title":{"rendered":"JOAQUIM"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/joaquim.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-943 size-medium\" src=\"http:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/joaquim-204x300.jpg\" alt=\"\" width=\"204\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/joaquim-204x300.jpg 204w, https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/joaquim-768x1128.jpg 768w, https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/joaquim-697x1024.jpg 697w, https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/joaquim.jpg 1009w\" sizes=\"auto, (max-width: 204px) 100vw, 204px\" \/><\/a>O filme \u201cJOAQUIM\u201d, de Marcelo Gomes, a exemplo da obra \u201cMem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas\u201d, de Machado de Assis, abre com a imagem do busto de TIRADENTES e a fala do narrador defunto.<br \/>\nO recurso narrativo ser\u00e1 utilizado apenas uma vez mais durante o filme, abandonando-se por completo, a partir da\u00ed, a figura do narrador cuja voz se encontra fora da imagem.<br \/>\nLembro do estratagema da narrativa em off porque Marcelo Gomes constr\u00f3i grandiosamente seu filme do in\u00edcio \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de JOAQUIM, acontecida pouco antes dos epis\u00f3dios finais do filme.<br \/>\nAs cenas s\u00e3o costuradas com lapidar preocupa\u00e7\u00e3o em nos apresentar um personagem hist\u00f3rico em sua mais completa humanidade, bem distinto do TIRADENTES que conhecemos dos livros de Hist\u00f3ria do Brasil.<br \/>\nJOAQUIM \u00e9 ambicioso, escravocrata, vaidoso, violento e machista.<br \/>\nN\u00e3o disp\u00f5e de recursos intelectuais para envelopar tais caracter\u00edsticas.<br \/>\nPretende ascender socialmente atrav\u00e9s do dinheiro e proximidade com os poderosos.<br \/>\n\u00c9 apaixonado pela escrava que trata como quem nada mais espera dela a n\u00e3o ser a servid\u00e3o de toda ordem.<br \/>\nAo redor de JOAQUIM transitam personagens arquet\u00edpicos da estrutura social que sustenta a engrenagem do Brasil que \u00e9 col\u00f4nia de Portugal: o \u00edndio, o negro, o alferes, o padre, o governador intendente, o poeta e o imigrante portugu\u00eas que n\u00e3o se encaixa no papel que lhe \u00e9 designado na col\u00f4nia.<br \/>\nS\u00e3o exuberantes as imagens em que alguns dos personagens peregrinam em busca do ouro existente na regi\u00e3o.<br \/>\nS\u00e3o emblem\u00e1ticas as rela\u00e7\u00f5es que se tecem entre o negro e o \u00edndio, entre este e os brancos, entre aquele e seu dono, entre este e o portugu\u00eas rec\u00e9m chegado \u00e0 col\u00f4nia.<br \/>\n\u00c9 de particular signific\u00e2ncia o instante em que o negro e o \u00edndio, cantando seu canto ritmado, como que reencontrassem certa matriz que lhes fosse comum.<br \/>\nA cena se d\u00e1 em meio \u00e0 expedi\u00e7\u00e3o comandada por JOAQUIM.<br \/>\nEnquanto o branco, o portugu\u00eas e o capataz est\u00e3o \u00e0s voltas com o sucesso ou fracasso da expedi\u00e7\u00e3o, o negro e o \u00edndio parecem totalmente integrados \u00e0 paisagem a um s\u00f3 tempo bela, r\u00fastica e amea\u00e7adora.<br \/>\nA carpintaria dram\u00e1tica do filme arrasta-nos para bem pr\u00f3ximo dos corpos dos personagens.<br \/>\nA c\u00e2mera opera quase que em contiguidade \u00e0 massa f\u00edsica que aqueles corpos representam.<br \/>\nTudo costurado com maestria por Marcelo Gomes.<br \/>\nEis que JOAQUIM, embora vitorioso solit\u00e1rio em sua busca obsessiva do ouro que compraria a ascens\u00e3o social, se percebe v\u00edtima da engrenagem que n\u00e3o lhe permitir\u00e1 conquistar os objetivos mais b\u00e1sicos.<br \/>\nO amigo poeta apresentar\u00e1 a literatura estrangeira que lhe abrir\u00e1 a senda para a poss\u00edvel conscientiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<br \/>\nE \u00e9 aqui que o filme perde toda a pot\u00eancia exibida at\u00e9 ent\u00e3o.<br \/>\nJOAQUIM (o personagem) se torna caricato, mesmo tendo presenciado a for\u00e7a e beleza do ritual numa quilombola de escravos fugitivos, ritual este presidido pela ex-escrava por quem \u00e9 apaixonado.<br \/>\nSer\u00e3o \u201cideias fora do lugar\u201d ou \u201c lugar fora das ideias\u201d, como express\u00f5es utilizadas por Roberto Schwarz e Jos\u00e9 Miguel Wisnik em an\u00e1lise acerca da importa\u00e7\u00e3o das ideias para lugares e corpos que n\u00e3o lidariam bem com elas, as id\u00e9ias liberais importadas, a menos que as caricaturizem ?<br \/>\nOu ser\u00e1 que fora da caricatura s\u00f3 nos resta a antropofagia como caminho para constru\u00e7\u00e3o de ideias originais ?<br \/>\nEmbora a cena final revele o Brasil e suas estruturas de poder do s\u00e9culo XVIII e que seguem vigentes em pleno s\u00e9culo XXI, a esta altura o filme j\u00e1 se despotencializou e perdeu a grande oportunidade de composi\u00e7\u00e3o que anunciara em seu in\u00edcio.<br \/>\nUma pena&#8230;<\/p>\n<p><em><strong>Luiz Carlos Andrade Santos<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O filme \u201cJOAQUIM\u201d, de Marcelo Gomes, a exemplo da obra \u201cMem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas\u201d, de Machado de Assis, abre com a imagem do busto de TIRADENTES e a fala do narrador defunto. 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