{"id":400,"date":"2017-02-22T23:28:29","date_gmt":"2017-02-23T02:28:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/?p=400"},"modified":"2018-07-31T11:24:19","modified_gmt":"2018-07-31T14:24:19","slug":"o-que-esta-por-vir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/o-que-esta-por-vir\/","title":{"rendered":"O QUE EST\u00c1 POR VIR"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-402 alignleft\" src=\"http:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/oqueestaporvir-poster-211x300.jpg\" alt=\"\" width=\"211\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/oqueestaporvir-poster-211x300.jpg 211w, https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/oqueestaporvir-poster.jpg 352w\" sizes=\"auto, (max-width: 211px) 100vw, 211px\" \/>O filme \u201cO Que Est\u00e1 Por Vir\u201d se nos apresenta com in\u00fameras cenas que n\u00e3o duram sequer sessenta segundos.<br \/>\nDito assim, sem que o leitor tenha assistido ao filme, tem-se a impress\u00e3o de que estamos frente \u00e0 somat\u00f3ria de in\u00fameros v\u00eddeo-clipes desconectados.<br \/>\nNada mais equivocado.<br \/>\nO minimalismo do filme n\u00e3o se traduz em frenesi.<br \/>\nTrata-se de cenas m\u00ednimas que revelam a delicadeza das rea\u00e7\u00f5es humanas quando diante de acontecimentos que s\u00f3 aparentam (em verdade n\u00e3o o s\u00e3o) ser gatilhos demolidores da exist\u00eancia.<br \/>\nO fim do casamento de muitos anos, a morte da m\u00e3e que lhe \u00e9 dependente, os filhos que j\u00e1 n\u00e3o moram consigo ou a perda do emprego, ainda que impactantes, n\u00e3o destr\u00f3em a exist\u00eancia.<br \/>\nAntes rearranjam nossos sentimentos em patamar diferente.<br \/>\nPatamar, palavra de sonoridade ind\u00f3cil, representa o est\u00e1gio intermedi\u00e1rio entre o antes e depois.<br \/>\nA protagonista precisa encontrar a b\u00fassola que a oriente nesse novo patamar.<br \/>\nSente-se livre.<br \/>\nDo marido, da m\u00e3e, dos filhos ou das aulas de filosofia que lecionava na escola.<br \/>\nEntretanto, de que vale a liberdade involuntariamente conquistada ?<br \/>\nPandora, a gata da m\u00e3e falecida e da qual a princ\u00edpio se quer desvencilhar, torna-se objeto do seu afeto.<br \/>\nQuando em patamar intermedi\u00e1rio (e sempre estamos em patamar intermedi\u00e1rio), algo na vida se desestabiliza.<br \/>\nPor se oferecer \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o est\u00e9tica atrav\u00e9s do alinhavamento de tantas pequenas cenas, \u00e9 digna de elogio a sequ\u00eancia em que a protagonista visita em companhia do ex-marido, e pela \u00faltima vez, a casa de praia em que anualmente passavam as f\u00e9rias na Bretanha.<br \/>\nAo telefone fica sabendo que sua m\u00e3e n\u00e3o est\u00e1 bem de sa\u00fade e retorna a Paris, interrompendo a despedida do lugar que tanto ama.<br \/>\nA s\u00edntese das cenas em que pede ao ex-marido que a leve \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de trem, arruma sua mala de viagem, o trajeto silencioso de ambos no autom\u00f3vel, seu olhar para as praias das quais se despede, e a chegada em Paris para encontrar a m\u00e3e, transp\u00f5e-nos \u00e0 evid\u00eancia de que \u201cO Que Est\u00e1 Por Vir\u201d \u00e9 um grande filme.<br \/>\nTranscorreram muitos minutos com tantas pequenas cenas e \u00e9 a primeira vez que temos a m\u00fasica n\u00e3o dieg\u00e9tica ilustrando a cena em que o ex-marido a leva at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o de trem.<br \/>\nS\u00f3 n\u00f3s, espectadores, ouvimos aquela can\u00e7\u00e3o que parece um lied de Schubert (n\u00e3o consultei a ficha t\u00e9cnica para saber se realmente o \u00e9).<br \/>\nO sil\u00eancio de ambos na cena do carro, no entanto, \u00e9 tomado pela can\u00e7\u00e3o que nos fisga emocionalmente sem banalizar o que se passa na tela do cinema.<br \/>\nNathalie (esse \u00e9 o nome da protagonista mais uma vez magistralmente interpretada por Isabelle Huppert) \u00e9 quase o arqu\u00e9tipo daqueles que est\u00e3o deslocados no mundo que se desintegra ou liquefaz.<br \/>\nVai ao cinema assistir \u201cC\u00f3pia Fiel\u201d do talentos\u00edssimo Abbas Kiarostami e por ser assediada durante a sess\u00e3o n\u00e3o v\u00ea o final do filme.<br \/>\nProcura algum sentido no comportamento dos jovens e n\u00e3o o encontra.<br \/>\nOs livros de filosofia que l\u00ea mais parecem teorias divorciadas da realidade que paradoxalmente s\u00f3 \u00e9 p\u00f3s-moderna por respeitar as leis do mercado (o qu\u00ea ou quem \u00e9 o mercado ?).<br \/>\nEis que justo nesse patamar nasce o filho da sua filha.<br \/>\nNathalie agora \u00e9 av\u00f3.<br \/>\nE por ser av\u00f3 ressignifica o patamar em que se encontra.<br \/>\nA cena final me lembrou a proposta de Pier Paolo Pasolini para a s\u00e9tima arte, que pugnava pela exist\u00eancia do cinema-poesia.<br \/>\nMia Hansen-Love (este \u00e9 o nome da diretora) nos relembra que os patamares nada mais s\u00e3o do que o eterno retorno do come\u00e7o.<br \/>\nNathalie, ao final do filme, cantando a can\u00e7\u00e3o de ninar para o neto que chora em seu colo nada mais \u00e9 do que a representa\u00e7\u00e3o da volta ao come\u00e7o&#8230;<br \/>\nInfinitamente&#8230;<\/p>\n<p><em><strong>Luiz Carlos Andrade Santos<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O filme \u201cO Que Est\u00e1 Por Vir\u201d se nos apresenta com in\u00fameras cenas que n\u00e3o duram sequer sessenta segundos. 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