{"id":395,"date":"2017-02-22T23:24:12","date_gmt":"2017-02-23T02:24:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/?p=395"},"modified":"2018-07-31T11:24:19","modified_gmt":"2018-07-31T14:24:19","slug":"francofonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/francofonia\/","title":{"rendered":"FRANCOFONIA"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-396 alignleft\" src=\"http:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Francofonia-poster-210x300.jpg\" alt=\"\" width=\"210\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Francofonia-poster-210x300.jpg 210w, https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Francofonia-poster.jpg 575w\" sizes=\"auto, (max-width: 210px) 100vw, 210px\" \/>\u201cFrancofonia\u201d \u00e9 daqueles filmes que provocam sensa\u00e7\u00e3o de abandono quando terminam.<br \/>\nAlgo assim como se quis\u00e9ssemos continuar experimentando indefinidamente a proposta est\u00e9tica de Sokurov.<br \/>\nComo se tiv\u00e9ssemos sido arrastados para dentro da realidade e nossa \u201cdevolu\u00e7\u00e3o\u201d ao que entendemos como &#8220;mundo&#8221;, pelo autor, ao t\u00e9rmino do filme, significasse retornar para a ilus\u00e3o do que tomamos como vida.<br \/>\nSair do Cine Belas Artes que tanto amo por tudo que j\u00e1 vi ali desde que existe, e me deparar com o entroncamento da Rua da Consola\u00e7\u00e3o e a Avenida Paulista, ap\u00f3s assistir \u201cFrancofonia\u201d, me faz chorar compulsivamente.<br \/>\nFilmes de autor costumam n\u00e3o agradar aos menos exigentes.<br \/>\nFicou decididamente fora de moda gostar de filmes de autor.<br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o nos iludamos quanto \u00e0 certeza que nos invade quando estamos diante de um \u201cfilme de autor\u201d.<br \/>\nQuando isto acontece n\u00e3o cabe discuss\u00e3o acerca da obra de arte postada diante de nosso incr\u00e9dulo olhar: sabemos, necessariamente, que estamos frente \u00e0 obra de um autor.<br \/>\nResta-nos apenas fruir, fruir, fruir indefinidamente\u2026<br \/>\nO objeto do filme \u00e9 o Louvre.<br \/>\nOu melhor, o objeto do filme \u00e9 a arte protegida no recinto do museu.<br \/>\nMas estamos em guerra e os bombardeios na segunda guerra poderiam danificar a edifica\u00e7\u00e3o e seu conte\u00fado.<br \/>\nEnquanto assistia ao filme perguntei-me: quando n\u00e3o estivemos em guerra ?<br \/>\nDe modo que o dispositivo-museu \u00e9 como que uma embarca\u00e7\u00e3o transportando atrav\u00e9s da hist\u00f3ria, em mar bravio, os conte\u00fados de valor art\u00edstico que a humanidade preservou da barb\u00e1rie.<br \/>\nQuantos containers foram perdidos na travessia ?<br \/>\nQuantas mensagens inseridas na garrafa se perderam na areia de praias desertas ?<br \/>\nQuantas preciosidades se perderam nos bombardeios e saques realizados contra o Hermitage de S\u00e3o Petersburgo ?<br \/>\nNa Paris ocupada pelos alem\u00e3es encontramos em franca rela\u00e7\u00e3o o diretor de Louvre e o oficial alem\u00e3o respons\u00e1vel pela \u201cpreserva\u00e7\u00e3o\u201d dos castelos, museus e obras de arte existentes em solo franc\u00eas.<br \/>\nA c\u00e2mera de Sokurov \u00e9 o pr\u00f3prio Sokurov.<br \/>\n\u00c9 ela que interpela Tchekhov e Tolstoi.<br \/>\nComo despert\u00e1-los do sono em que dormem profundamente ?<br \/>\n\u00c9 ela, a c\u00e2mera de Sokurov, que remove camadas de embuste que as raz\u00f5es de estado imp\u00f5e \u00e0 hist\u00f3ria contada pelos vencedores.<br \/>\nAo Louvre n\u00e3o ocorreu o que ocorrera em S\u00e3o Petersburgo.<br \/>\nAs obras foram insidiosamente transportadas por resistentes franceses para castelos que protegeram-nas da apropria\u00e7\u00e3o do invasor.<br \/>\nEla, a c\u00e2mera, sempre ela, a c\u00e2mera e sua representa\u00e7\u00e3o do olhar, interpelam a hist\u00f3ria e seus personagens que tal qual Tchekhov e Tolstoi parecem dormir profundamente.<br \/>\nOnde est\u00e3o exatamente os limites da t\u00eanue fronteira que separa (separa ?), na Fran\u00e7a invadida pelos alem\u00e3es, o invasor do resistente, e este do colaborador ?<br \/>\nSe os vest\u00edgios da exist\u00eancia hist\u00f3rica das personagens foram apagados dos relat\u00f3rios oficiais, como recuperar a verdade dos fatos ?<br \/>\nEnfim, como despertar nossos personagens e artistas, ou antes ainda, como despertar a verdadeira obra de arte do seu sono dogm\u00e1tico e faz\u00ea-los todos simplesmente \u201cfalar\u201d, se o sinal da comunica\u00e7\u00e3o insiste em colapsar intermitentemente ?<br \/>\n\u201cFrancofonia\u201d \u00e9 o exerc\u00edcio cinematogr\u00e1fico desta indaga\u00e7\u00e3o.<br \/>\nFunciona no limiar da pr\u00f3pria carpintaria.<br \/>\nQuase que temos a impress\u00e3o de que o filme \u00e9 constru\u00eddo no instante mesmo da proje\u00e7\u00e3o, ainda que saibamos racionalmente que as imagens foram gravadas.<br \/>\nTalvez a apari\u00e7\u00e3o da claquete seja propositalmente mostrada para que n\u00e3o esque\u00e7amos que estamos diante de um filme.<br \/>\nTalvez a presen\u00e7a c\u00eanica do diretor seja intencionalmente calculada para distorcer, no limite, os v\u00edcios do olhar do cinema cl\u00e1ssico que sempre pretendeu desaparecer com o autor.<br \/>\nSokurov j\u00e1 me impressionara demasiadamente com seu \u201cFausto\u201d.<br \/>\nCom \u201cFrancofonia\u201d alcan\u00e7a o est\u00e1gio maduro dos autores que t\u00eam consci\u00eancia do que fazer com as imagens.<br \/>\nTalvez, e principalmente com a morte recente de Kiarostami, seja o maior dentre os vivos.<\/p>\n<p><em><strong>Luiz Carlos Andrade Santos<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cFrancofonia\u201d \u00e9 daqueles filmes que provocam sensa\u00e7\u00e3o de abandono quando terminam. 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