{"id":1894,"date":"2018-02-14T11:05:26","date_gmt":"2018-02-14T13:05:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/?p=1894"},"modified":"2022-02-06T11:42:58","modified_gmt":"2022-02-06T14:42:58","slug":"copia-fiel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/copia-fiel\/","title":{"rendered":"C\u00f3pia Fiel"},"content":{"rendered":"<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1896 alignleft\" src=\"http:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/copia-fiel-post-227x300.jpg\" alt=\"\" width=\"227\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/copia-fiel-post-227x300.jpg 227w, https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/copia-fiel-post.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 227px) 100vw, 227px\" \/>C\u00f3pia Fiel<\/strong> \u2013 Por Luiz Carlos Andrade Santos<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns meses produzi dentro de mim a &#8220;proto-teoria&#8221; de que os filmes, assim como as crian\u00e7as, no seu desenvolvimento, em algum instante p\u00f5em-se de p\u00e9 e caminham com esfor\u00e7o pr\u00f3prio, quase como se ganhassem vida aut\u00f4noma, independente da produ\u00e7\u00e3o, dire\u00e7\u00e3o e toda a parafern\u00e1lia que caracteriza o cinemat\u00f3grafo e a ind\u00fastria que se criou a partir do experimento com as imagens em movimento projetadas na tela. N\u00e3o se trata aqui da defesa do cinema cl\u00e1ssico, no qual a id\u00e9ia de autor e a montagem se pretendem como que invis\u00edveis ao olhar do espectador. Refiro-me antes \u00e0 obra de arte em seu mais perfeito acabamento. Iniciada a proje\u00e7\u00e3o no ret\u00e2ngulo branco, quanto antes os filmes conseguem faz\u00ea-lo (por-se de p\u00e9), tanto mais nos capturam para uma real experi\u00eancia est\u00e9tica. N\u00e3o que aqueles filmes que se p\u00f5em de p\u00e9 l\u00e1 pelos seus dois quartos de dura\u00e7\u00e3o n\u00e3o possam tamb\u00e9m realizar esta mesma captura sensorial. Mas \u00e9 ineg\u00e1vel que quando isto acontece de pronto, temos a magia do cinema em todo seu esplendor. Lembrei de minha quase que infantil elocubra\u00e7\u00e3o acima ao assistir, em segunda vez, ao filme &#8220;C\u00f3pia Fiel&#8221;, de Abbas Kiarostami. Eis o tipo de obra que do primeiro ao \u00faltimo plano n\u00e3o nos permite &#8220;defesa&#8221;. \u00c9 irresist\u00edvel sem recorrer a trucagens. &#8220;Dialoga&#8221; com o espectador em regi\u00f5es t\u00e3o sutis de compreens\u00e3o que mesmo onde parece que fomos desorientados, at\u00e9 mesmo ali n\u00e3o h\u00e1 dispers\u00e3o, desinteresse ou cansa\u00e7o decorrentes de algum nosso empenho de ordem meramente intelectual ou racional.<\/p>\n<p>Outro dia, caminhando no cal\u00e7ad\u00e3o do centro velho da cidade, observei a gar\u00e7onete e seu semblante ao ler mensagem de texto em seu aparelho de fone celular. Evidente que n\u00e3o sei o que ali seguia escrito. O que sei \u00e9 que por um fugidio instante, aquela gar\u00e7onete subtraiu-se encantat\u00f3riamente do cotidiano e seu rosto autenticava que eu era, naquele momento, testemunha de que algu\u00e9m fora restitu\u00eddo ao fluxo da vida. Digo isto n\u00e3o pelo sereno contentamento que ela exibia com seu corpo. Minha impress\u00e3o seria a mesma se ela externasse tristeza ou desespero.<\/p>\n<p>Cito este epis\u00f3dio de car\u00e1ter pessoal para falar de outra sorte de interven\u00e7\u00e3o, agora como corte, interrup\u00e7\u00e3o, desvio ou ru\u00eddo que interfere de outro jeito no fluxo da vida. Na primeira cena do filme, temos a situa\u00e7\u00e3o em que um escritor est\u00e1 atrasado para a palestra que proferir\u00e1 por ocasi\u00e3o do lan\u00e7amento do seu livro. Ao chegar no audit\u00f3rio, \u00e9 aplaudido e abordado por aqueles que desejam um seu aut\u00f3grafo, antes mesmo do in\u00edcio da palestra. Quando seu discurso principia, assistimos \u00e0 inusitada e constrangedora circunst\u00e2ncia em que ele, o palestrante, atende ao chamado n\u00e3o urgente do seu fone celular, na presen\u00e7a de todos que supostamente est\u00e3o ali para ouvi-lo discorrer sobre as id\u00e9ias contidas em seu livro. Assistimos ainda \u00e0 ouvinte que tinha lugar reservado na primeira fila, comportar-se, durante o pouco tempo em que esteve presente, como se ali n\u00e3o estivesse, vez que neste lapso de tempo limitou-se a trocar olhares com o filho que, \u00e0 dist\u00e2ncia, enquanto manuseava sua min\u00fascula engenhoca de v\u00eddeo games, solicitava insistentemente a presen\u00e7a de sua m\u00e3e para poder desfrutar seu sandu\u00edche acompanhado de coca-cola e batatas fritas na lanchonete pr\u00f3xima ao local da palestra. assistimos, tamb\u00e9m, ao truncado di\u00e1logo de m\u00e3e e filho na lanchonete, em que ela \u00e9 sistematicamente provocada por ele, sem que em nenhum momento da sequ\u00eancia ele abandone a intera\u00e7\u00e3o com seu aparelho eletr\u00f4nico.<\/p>\n<p>Em cerca de aproximadamente dez minutos de proje\u00e7\u00e3o, o filme est\u00e1, digamos assim, em p\u00e9 e pronto para caminhar sozinho. O escritor quer falar da sua obra mas paradoxalmente n\u00e3o est\u00e1 ali. Alguns espectadores se deslocaram para ouvi-lo, mas no fundo querem mesmo gozar da concess\u00e3o de um aut\u00f3grafo, talvez para exibi-lo posteriormente como uma conquista. A convidada ilustre n\u00e3o pode minimamente se concentrar na fala do escritor porque seu filho, que tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 ali, solicita impertinentemente sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Observamos que na segunda parte do filme, o fone celular tamb\u00e9m ser\u00e1 protagonista de interrup\u00e7\u00f5es relevantes. Kiarostami, contudo, toma tais interrup\u00e7\u00f5es como hiatos invis\u00edveis que s\u00f3 refor\u00e7am a impress\u00e3o de ritmo e continuidade do filme. \u00c9 como se n\u00e3o vivenci\u00e1ssemos a experi\u00eancia do corte. Algo segue se desenhando mesmo quando os di\u00e1logos s\u00e3o inesperadamente interrompidos, num jogo em que j\u00e1 n\u00e3o sabemos mais se o fio da meada est\u00e1 no que se diz na superf\u00edcie ou no que se trama e silencia naquilo que n\u00e3o se diz. Esta ambiguidade, entretanto, fortalece a espinha dorsal do filme e n\u00e3o nos deixa carentes de dire\u00e7\u00e3o ou sentido.<\/p>\n<p>O exemplo da cena no caf\u00e9, em que o personagem James Miller (o escritor), vivido por William Shimell, se retira para atender seu fone celular, deixando a personagem Elle (a ilustre convidada da primeira fileira), vivida por Juliette Binoche, dispon\u00edvel para uma conversa entre mulheres com a atendente que serve o caf\u00e9, \u00e9 emblem\u00e1tico deste procedimento adotado por Kiarostami. N\u00e3o importa que nos vejamos diante do impasse de sabermos se \u00e9 plaus\u00edvel que assumamos como veross\u00edmel que doravante e at\u00e9 o final do filme eles formam um casal que &#8220;convive&#8221; h\u00e1 quinze anos. Importa isto sim, que a m\u00e3o invis\u00edvel do autor genial nos faz acreditar no que at\u00e9 ali parecia improv\u00e1vel, sendo que para que isto acontecesse, n\u00f3s, espectadores, n\u00e3o tivemos que mobilizar mais do que uma reserva m\u00ednima de esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Ainda nesta mesma cena, no di\u00e1logo entre Elle e a senhora atendente, temos a chave para a compreens\u00e3o do sentido da trama. James n\u00e3o fala franc\u00eas, idioma de Elle. Tampouco fala italiano, idioma da atendente. Elle fala e entende franc\u00eas, a l\u00edngua de sua p\u00e1tria, al\u00e9m do ingl\u00eas e do italiano, l\u00edngua do lugar onde vive h\u00e1 cinco anos. A atendente estranha singelamente que James, aparentemente um bom marido, n\u00e3o consiga se comunicar em outra l\u00edngua que n\u00e3o o ingl\u00eas. Quase que inconscientemente nos adverte que James delibera se comunicar apenas em ingl\u00eas porque pretende se comunicar apenas consigo mesmo.<\/p>\n<p>Desde Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles, a \u201cmimese\u201d (imita\u00e7\u00e3o, c\u00f3pia, representa\u00e7\u00e3o) \u00e9 assumida como problem\u00e1tica filos\u00f3fica. Imitar as coisas \u00e9 o processo no qual temos estas coisas apresentadas (seria melhor diz\u00ea-lo representadas) como aquilo que n\u00e3o s\u00e3o essencialmente em si mesmas. H\u00e1 um abismo intranspon\u00edvel entre o objeto e a imagem que mimetiza o objeto, por mais fidedigna que seja a imagem. O que dizer ent\u00e3o dos arqu\u00e9tipos que funcionam como \u201cmodelos\u201d para comportamentos que, grosso modo, nada mais s\u00e3o do que \u201cc\u00f3pias insuficientes\u201d na tentativa de comunica\u00e7\u00e3o entre os seres humanos? James e Elle se enredam no jogo anima\/animus de modo t\u00e3o elementar e \u00f3bvio que em certos momentos temos a impress\u00e3o de que nada mais s\u00e3o do que o espelho no qual James reflete o masculino de Elle e esta, por sua vez, exprime, por espelhamento, o feminino de James. O espelho, ali\u00e1s, \u00e9 um objeto caro a Kiarostami.<\/p>\n<p>Na cena que se desenrola na pra\u00e7a, onde h\u00e1 uma escultura de um homem amparando\/escorando\/protegendo uma mulher, assistimos \u00e0 admira\u00e7\u00e3o de Elle pela escultura, primeiro atrav\u00e9s de um espelho no canto da pra\u00e7a. Posteriormente seguimos acompanhando-a pelo espelho da motocicleta que tamb\u00e9m est\u00e1 ali. A motocicleta, por um \u00e1timo de segundo, chama a aten\u00e7\u00e3o de James, que permanece indiferente \u00e0 escultura e seus efeitos sobre Elle, que est\u00e1 fora do campo e no entanto permanece no campo.<\/p>\n<p>Enfim, atrav\u00e9s de cenas aparentemente banais e destitu\u00eddas de sentido ou significado, h\u00e1 um jogo corrente nas falas e sil\u00eancios do casal que n\u00e3o sabemos, ao certo, se se trata mesmo de um casal, ou se Kiarostami, atrav\u00e9s de roteiro t\u00e3o singelo, quer nos chamar aten\u00e7\u00e3o, mais uma vez, para o car\u00e1ter amb\u00edguo da imagem trabalhada pela s\u00e9tima arte.<\/p>\n<p>Uma verdadeira obra-prima do cinema contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nLuiz Carlos Andrade Santos<\/strong>, amigo, fil\u00f3sofo, cin\u00e9filo e escritor de talento sublime e que nos deixou em Agosto de 2017. Certamente n\u00e3o concordaria com os adjetivos colocados acima pois era por demais humilde e nunca quis ser enquadrado nos t\u00edtulos. Por\u00e9m como nada ele pode fazer no momento para impedir que eu o descreva, segue estes e muitos outros adjetivos que ele merecia. Ler seus textos \u00e9 uma forma de matar a saudades e honrar sua mem\u00f3ria. E assim continuar vibrando com sua inspira\u00e7\u00e3o e presen\u00e7a em nossas vidas. Que falta voc\u00ea nos faz meu querido Luiz!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00f3pia Fiel \u2013 Por Luiz Carlos Andrade Santos H\u00e1 alguns meses produzi dentro de mim a &#8220;proto-teoria&#8221; de que os filmes, assim como as crian\u00e7as, no seu desenvolvimento, em algum instante p\u00f5em-se de p\u00e9 e caminham com esfor\u00e7o pr\u00f3prio, quase como se ganhassem vida aut\u00f4noma, independente da produ\u00e7\u00e3o, dire\u00e7\u00e3o e toda a parafern\u00e1lia que caracteriza [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1899,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[14,15,80],"tags":[],"class_list":["post-1894","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artes","category-cinema","category-luiz-carlos-andrade-santos"],"blocksy_meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1894","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1894"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1894\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1898,"href":"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1894\/revisions\/1898"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1899"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1894"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1894"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1894"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}