{"id":1470,"date":"2017-09-16T09:33:33","date_gmt":"2017-09-16T12:33:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/?p=1470"},"modified":"2017-09-16T09:39:54","modified_gmt":"2017-09-16T12:39:54","slug":"coragem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/coragem\/","title":{"rendered":"CORAGEM"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Coragem&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Antes que a aula termine, pe\u00e7o a ela que fique um pouco mais depois do hor\u00e1rio. N\u00e3o que eu acredite que possa ajudar. N\u00e3o mais. Fiz isso durante os dois primeiros anos, mas n\u00e3o adiantou. Pelo contr\u00e1rio, quanto mais eu tentei ajud\u00e1-las, mais elas se afastaram de mim, me evitaram. Tive noites de medo, de desespero. Em v\u00e3o. Ent\u00e3o, bem devagar, com grande esfor\u00e7o, fui me distanciando dessas vidas t\u00e3o fr\u00e1geis, desses corpos franzinos que n\u00e3o precisam de ajuda, mas de estruturas permanentes que eu n\u00e3o posso oferecer.<br \/>\nQuando o que se tem para dar \u00e9 apenas salva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se tem nada. A salva\u00e7\u00e3o \u00e9 pat\u00e9tica. Uma vis\u00e3o unicista e distorcida da realidade, baseada na nossa cren\u00e7a pessoal do que \u00e9 melhor para todos. A meu favor, o fato de ser uma cren\u00e7a honesta. Mas as cren\u00e7as n\u00e3o bastam. Honestas ou n\u00e3o. Acreditar \u00e9 perigoso e doloroso.<br \/>\nFoi um tempo de conversas e pensamentos que n\u00e3o vingaram. A cada insucesso, a teimosia de uma nova tentativa, at\u00e9 que as op\u00e7\u00f5es se esvaziaram e eu finalmente assumi o que os sinais gritavam para mim havia muito tempo: que a normalidade vista do meu ponto de vista era somente uma farsa ruim.<br \/>\nA aula acabou. Agora, estamos s\u00f3 n\u00f3s duas. E, estranhamente, n\u00e3o sei o que dizer. Eu e meus pontos de vista j\u00e1 testados, sem valia. Eu e minhas promessas, at\u00e9 ent\u00e3o cumpridas, de n\u00e3o me envolver nunca mais. Mas hoje n\u00e3o estou conseguindo me conter. N\u00e3o que ela seja assim t\u00e3o diferente das outras. Os mesmos olhos baixos, o mesmo riso pouco, as mesmas unhas pintadas de vermelho, o mesmo cabelo comprido alisado, o mesmo batom escandaloso, as mesmas manchas roxas ocasionais no pesco\u00e7o, o mesmo perfume barato e forte. A mesma menina a quem dediquei conselhos e noites insones. Em outros tempos, em outros corpos. A compuls\u00e3o da ajuda, contida por tantos anos, volta. E eu me reaproximo do caos.<br \/>\nLu\u00edsa Cristina tem 14 anos. E \u00e9 preciso que ela tenha nome e hist\u00f3ria para que n\u00e3o vire apenas uma estat\u00edstica ruim. Lu\u00edsa Cristina \u00e9 apenas mais uma menina. Uma menina pobre. Invis\u00edvel. Que sonha com cantores e artistas que ela s\u00f3 vai ver nas telas, nas revistas. Que se enfeita para pr\u00edncipes, enquanto se prepara precocemente para os meninos \u00e1vidos que lhe oferecem um sexo bruto, r\u00e1pido e malfeito. Pobres de afeto como ela. Acenando com o status de um dinheiro que n\u00e3o importa de onde vem. N\u00e3o para ela.<br \/>\nEla \u00e9 bonita. Pele lisa, cor de carvalho jovem. Olhos de jabuticaba madura, pintados com o tra\u00e7o preto e alongado do delineador bem passado. Dentes grandes e brancos nos quais as c\u00e1ries ainda n\u00e3o fizeram estragos. Cabelos pretos, um pouco menos limpos do que se espera; compridos demais. Mas existe alguma coisa que n\u00e3o combina. Que n\u00e3o se harmoniza. Talvez o repuxar dos cantos da boca. Talvez o piscar excessivamente lento. O desinteresse pelas aulas, as unhas descascadas nas pontas, o suor persistente na testa, o olhar desconfiado e emba\u00e7ado, o riso f\u00e1cil e bobo. Coisas que antes n\u00e3o estavam l\u00e1.<br \/>\nAssim que ela se senta, eu sinto o cheiro de \u00e1lcool. Passa pouco do meio-dia e o h\u00e1lito azedo me conta que j\u00e1 faz algum tempo que a bebida foi ingerida. A dor guardada h\u00e1 anos retorna, resgatando argumentos cuidadosamente esquecidos. A voz n\u00e3o sai. \u00c9 preciso repensar o discurso gasto que n\u00e3o vai me levar a lugar algum.<br \/>\nTenho poucos instantes at\u00e9 que ela se canse do meu sil\u00eancio e se tranque bem fundo. N\u00e3o quero que ela perceba em mim piedade ou rejei\u00e7\u00e3o. Seria o mesmo que empurr\u00e1-la para ainda mais longe. Por isso, quebro as promessas que me fiz. Desisto do cuidado com as palavras, do rosto inexpressivo e de toda a prud\u00eancia. Pergunto o que est\u00e1 acontecendo. Sem rodeios. Pergunto como se n\u00e3o soubesse. Pergunto sem qualquer esperan\u00e7a de ouvir uma resposta que derrube o muro entre n\u00f3s duas. Mas, surpreendentemente, ela me conta tudo. Detalha momentos que me constrangem. A voz lenta, baixa, entrecortada, pastosa. N\u00e3o h\u00e1 encena\u00e7\u00e3o nesse rosto em que algumas espinhas denunciam a pouca idade que a maquilagem insiste em aumentar. Ela n\u00e3o reduz nem exagera, n\u00e3o esconde nem enfeita.<br \/>\nAprendeu a beber com a m\u00e3e. A m\u00e3e que a leva para a casa da av\u00f3 antes de sumir e reaparecer dias depois com esmaltes, batons, doces, chicletes, perfumes e roupas baratas. Que a deixa na casa da av\u00f3 porque l\u00e1 ela est\u00e1 a salvo de tudo. A m\u00e3e a quem ela ama com a fidelidade da admira\u00e7\u00e3o. A m\u00e3e que ela encontra ca\u00edda no canto de um botequim imundo, dormindo encostada numa parede. E a quem tenta acordar primeiro com carinhos, depois com sacudidas e, finalmente, com gritos, at\u00e9 que o dono do bar, para se ver livre da confus\u00e3o, vem ajud\u00e1-la.<br \/>\nNo barraco de ch\u00e3o batido, v\u00ea o corpo desmaiado ser jogado pelo homem no sof\u00e1 furado da sala. V\u00ea e aprende. Come\u00e7a a ir buscar a m\u00e3e no botequim todos os dias. E a deit\u00e1-la no sof\u00e1 vagabundo, e a dar banho nela, e a coar um caf\u00e9 ralo que a obriga a tomar. Aprende a limpar o v\u00f4mito, a merda e o mijo que fedem por toda parte. E descobre garrafas de pinga barata escondidas em gavetas e em caixas de papel\u00e3o.<br \/>\nProva a bebida por curiosidade. Para entender. N\u00e3o gosta. Mas o calor e o relaxamento do corpo lhe trazem uma alegria desconhecida. E coragem. Passa dias sem tomar outro gole. At\u00e9 que sente vontade de ter coragem outra vez. Para se exibir para os meninos do col\u00e9gio, para se achar bonita, para se esquecer das roupas velhas, para n\u00e3o se lembrar da m\u00e3e babando no ch\u00e3o do bar, para ser outra pessoa. Bebe de novo. Um pouco mais. Quando a m\u00e3e descobre, acha gra\u00e7a. E faz dela confidente, c\u00famplice, companheira. Leva-a para o bar nos fins de semana. Ensina-a a agradar os homens para que eles paguem pelas bebidas e pelos boquetes inexperientes feitos na rua, atr\u00e1s do bar. Mas n\u00e3o deixa que ela v\u00e1 al\u00e9m do sexo oral. Quem quiser tirar o caba\u00e7o da filha que pague muito bem. E que pague adiantado. E que seja limpo. E que a leve para um quarto com banheiro e cama macia. Se n\u00e3o for assim, Lu\u00edsa Cristina n\u00e3o vai dar para ningu\u00e9m. N\u00e3o, n\u00e3o vai. Nada de trepar com os meninos do col\u00e9gio. Eles n\u00e3o podem pagar.<br \/>\nEu pergunto a ela quanto tempo faz, desde o primeiro gole. Mas a resposta n\u00e3o importa, porque qualquer tempo \u00e9 muito. Ela segue respondendo sem culpa a todas as perguntas. E eu s\u00f3 me surpreendo quando ela me diz que ainda \u00e9 virgem. Depois de tantos anos assistindo ao sexo precoce de meninas como ela, de ver gravidezes abortadas ou crian\u00e7as sendo paridas por crian\u00e7as, eu ainda me assusto. Ela me confessa que se guarda para o menino de quem gosta. N\u00e3o quer dormir com nenhum daqueles homens do botequim. E isso me apavora mais do que o resto. Saber que essa criatura fr\u00e1gil ainda sonha. \u00c9 t\u00e3o mais f\u00e1cil quando vejo nelas o jeito adulto da descren\u00e7a, o deboche da vulgaridade, a desist\u00eancia irremedi\u00e1vel.<br \/>\nLu\u00edsa Cristina n\u00e3o tem escolhas. Como tantas outras. Mas acha que tem. Ela pensa que dormir de gra\u00e7a com o menino da escola ser\u00e1 melhor que com o b\u00eabado arranjado pela m\u00e3e. N\u00e3o sabe que ambos v\u00e3o marc\u00e1-la com a desgra\u00e7a. Que tudo \u00e9 atalho conduzindo aos mesmos v\u00edcios. Que \u00e1lcool, sexo, drogas, sonhos s\u00e3o caminhos iguais. Que entre todos os v\u00edcios ela escolheu o pior: acreditar. Ela n\u00e3o sabe. Mas eu sei. E quero estar l\u00e1 quando ela descobrir que n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o. Que a salva\u00e7\u00e3o \u00e9 pat\u00e9tica. Estar l\u00e1 quando a f\u00e9 se tornar o pior inimigo. Para lhe oferecer uma escolha. Qualquer uma.<br \/>\nPreciso dizer isso a ela. N\u00e3o agora. N\u00e3o hoje. Talvez amanh\u00e3, semana que vem. N\u00e3o. N\u00e3o vou dizer. N\u00e3o vou ter tempo. Porque eu ainda n\u00e3o sei, mas nunca mais vou ver Lu\u00edsa Cristina. Eu ainda n\u00e3o sei que ela vai beber uma garrafa de pinga quando descobrir que a m\u00e3e j\u00e1 marcou dia e hora e pre\u00e7o para que ela seja estuprada na cama macia de um motel. E que, estimulada pela coragem fabricada pelo \u00e1lcool, vai decidir que tem o direito de escolher o seu destino. De escolher, pela primeira vez. De escolher, pela \u00faltima vez. De escolher o veneno de ratos debaixo da pia da casa da av\u00f3. A casa da av\u00f3, onde ela est\u00e1 a salvo de tudo. At\u00e9 da vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1434 alignright\" src=\"http:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/image2-253x300.jpg\" alt=\"\" width=\"253\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/image2-253x300.jpg 253w, https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/image2-542x645.jpg 542w, https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/image2.jpg 544w\" sizes=\"auto, (max-width: 253px) 100vw, 253px\" \/>Cinthia Kriemler<\/strong> \u00e9 contista. Carioca, mora em Bras\u00edlia desde 1969. Graduada em Comunica\u00e7\u00e3o Social\/Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas pela Universidade de Bras\u00edlia (UnB). Especialista em Estrat\u00e9gias de Comunica\u00e7\u00e3o, Mobiliza\u00e7\u00e3o e Marketing Social (UnB).<br \/>\nAutora de: Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance. Editora Patu\u00e1, 2017). Na escurid\u00e3o n\u00e3o existe cor-de-rosa (Contos. Editora Patu\u00e1, 2015) \u2014 obra semifinalista do Pr\u00eamio Oceanos 2016; Sob os escombros (Contos. Editora Patu\u00e1, 2014); Do todo que me cerca (Cr\u00f4nicas. Editora Patu\u00e1, 2012); Para enfim me deitar na minha alma (Contos. FAC-DF, 2010). Na Amazon Brasil, publicou os livros Conta\u00e7\u00f5es, Atos e omiss\u00f5es, e contos avulsos.<br \/>\nAlgumas antologias das quais participa: Horas partidas, Editora Penalux, 2017; Respeit\u00e1vel p\u00fablico \u2014 Hist\u00f3rias de circo e outras trag\u00e9dias, Editora Penalux 2015; Cole\u00e7\u00e3o Contos M\u00ednimos S\/A, Editora Penalux, 2013; II Concurso de Poesia Autores S\/A, Editora Multifoco, 2013; Pr\u00eamio SESC DF Monteiro Lobato de Contos Infantis, 2013.<br \/>\nEscreve para a Revista Samizdat. Tem textos publicados em: Mallarmargens, Revista Philos, Germina, Escritoras Suicidas, Diversos Afins, Conto Afora, Revista InComunidade.<br \/>\nSeu blog: <a href=\"http:\/\/cinthiakriemler.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/cinthiakriemler.blogspot.com.br\/<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Coragem&nbsp; Antes que a aula termine, pe\u00e7o a ela que fique um pouco mais depois do hor\u00e1rio. N\u00e3o que eu acredite que possa ajudar. N\u00e3o mais. Fiz isso durante os dois primeiros anos, mas n\u00e3o adiantou. Pelo contr\u00e1rio, quanto mais eu tentei ajud\u00e1-las, mais elas se afastaram de mim, me evitaram. 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