{"id":1154,"date":"2017-05-18T13:36:13","date_gmt":"2017-05-18T16:36:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/?p=1154"},"modified":"2017-05-18T13:57:20","modified_gmt":"2017-05-18T16:57:20","slug":"som-na-caichola-dj","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.foradacaixacoletivo.com.br\/openzine\/som-na-caichola-dj\/","title":{"rendered":"SOM NA CA(I)CHOLA, DJ!"},"content":{"rendered":"<p><b>Som na ca(i)chola, DJ!<br \/>\n<\/b><em>por Edgar Domingo de Albuquerque<\/em><\/p>\n<p align=\"justify\">Estava no carro, seguindo meu caminho para a universidade, ouvindo um <em>roquenrou<\/em> qualquer. Pensava na fluidez do tr\u00e2nsito. Sofr\u00edvel fluidez, pois a avenida marginal, de tr\u00eas pistas, num dado momento afunila sob a ponte que cruza o rio Sorocaba, estreitando o caminho. Observava o ir e vir de um sem n\u00famero de pessoas que dividiam o asfalto comigo naquele momento. Seria o motorista a minha frente algum conhecido? Teria o motorista atr\u00e1s de mim hora marcada em algum lugar? A mo\u00e7a no carro ao lado, o que estaria ouvindo? Tanta gente, tantos corpos transportados sob o quente sol de uma tarde de inverno. A m\u00fasica chegou ao fim, a r\u00e1dio fez um intervalo comercial. Na fala do locutor, um evento cujo nome me passou despercebido. Um evento no qual haveria a discotecagem do DJ cujo o nome tamb\u00e9m me passou despercebido, outro desconhecido para mim. Alternando entre primeira e segunda marchas, a fluidez do tr\u00e1fego se tornava cada vez mais espessa, viscosa como um brigadeiro de panela que endurece lentamente sob o olhar salivante das crian\u00e7as \u00e0 espera na sala de estar. Nesses momentos de imobilidade no tr\u00e2nsito, minha cachola rocinante se p\u00f5e a mascar algumas ideias&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">DJ, o <i>disc jockey<\/i>. Em outros tempos ele era o piloto das vitrolas. Meu deus, vitrola! Vitrola era coisa de v\u00f3, aparato que s\u00f3 perdia em simplicidade para as sonatas com adornos infantis, tais como a sonatinha colorida do Mickey. Pois bem, DJs pilotavam equipamentos mais sofisticados, capazes de produzir efeitos, mesclas sonoras, atrav\u00e9s da rota\u00e7\u00e3o de seus pratos. O DJ era o maestro das <i>pick-ups<\/i>. Uma \u00e0 esquerda, outra \u00e0 direita, um mixer no meio e <i>voil\u00e1<\/i>, o DJ orquestrava a mistura de m\u00fasicas que nasceram em diferentes momentos, paridas por diferentes bandas, mas que nas m\u00e3os h\u00e1beis dos DJs, fundiam-se, mixadas, siamesas, num terceiro elemento. Com os dedos pressionando a superf\u00edcie dos discos de vinil, o DJ controlava a rota\u00e7\u00e3o, o tempo, fazendo, inclusive, com que este andasse para tr\u00e1s, o sonho dos autores de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. <i>Scratches<\/i> adornavam as mixagens. R\u00e1pidas idas e vindas, distor\u00e7\u00f5es de um lado ou outro, o <i>scratch<\/i> arranhando a superf\u00edcie da normalidade. Eu nunca fui DJ, meu irm\u00e3o, sim. Tudo o que eu sei sobre mixagens, <i>scratches<\/i> e <i>pick-ups<\/i> animando um bando de gente num sal\u00e3o foi vendo o meu irm\u00e3o discotecando.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00e1 na escola do meu bairro, assim como nas escolas de todos os outros bairros \u2013 menos a da Ponte \u2013 as aulas s\u00e3o assim, discos de vinil. Cada uma tem l\u00e1 o seu n\u00famero de faixas, de li\u00e7\u00f5es. Quando o disco acaba, a <i>jukebox<\/i> escolar troca o vinil e uma nova aula-faixa come\u00e7a. A escola \u00e9 uma <i>jukebox<\/i> como a da sorveteria da Ilha Comprida, tem muita diversidade, vai de Queen a S\u00f3 pra Contrariar em tr\u00eas n\u00fameros. Mas uma <i>jukebox<\/i> n\u00e3o tem DJ. Entregue ao acaso, as m\u00e3os que a cada sinal trocam de disco e tocam aquilo que lhes foi gravado nos sulcos da mem\u00f3ria. Em geral, as aulas n\u00e3o s\u00e3o \u00e1lbuns, carecem de um tema, s\u00e3o compila\u00e7\u00f5es aleat\u00f3rias. N\u00e3o s\u00e3o como os discos do Pink Floyd. S\u00e3o mais como os discos de novelas, os \u00fanicos capazes de enfileirar no mesmo lado do vinil a pegada eletr\u00f4nica do New Order e um tango meloso na voz do Lu\u00eds Miguel. \u00c9 um <i>The Perfect Kiss<\/i> seguido de <i>Besame Mucho<\/i>! Veja bem, n\u00e3o sou contra a diversidade, ao contr\u00e1rio, gosto de ser ecl\u00e9tico, mas o que falta nas aulas \u00e9 o DJ, o <i>disc jockey<\/i>. Salta-se de uma faixa a outra sem maestria. Vai-se do Portugu\u00eas \u00e0 Matem\u00e1tica assim como se vai de um fado do Roberto, o Leal, para o dedilhado fren\u00e9tico do Eddie, o Van Halen, sem sequer um scratchezinho, uma mixadinha, \u00e9 salto seco. Falta a virada, falta um mixer no meio de uma coisa e outra. \u00c9 uma diversidade desligada da realidade, como se cada um fosse um ouvinte desligado do palco, do sal\u00e3o, do show. A escola-<i>jukebox<\/i> tem muitas m\u00fasicas, mas elas n\u00e3o chacoalham os ossos p\u00e9lvicos dos esqueletos&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">DJs n\u00e3o pilotam mais suas <i>pick-ups<\/i>. Nem mesmo CDs, cuja curta exist\u00eancia deu lugar aos MP3. Os bolach\u00f5es hoje s\u00e3o chipezinhos eletr\u00f4nicos cheios de bits e bytes. As maletas forradas de discos dos DJs foram compactadas em pequenos dispositivos que, espetados em novos aparelhos, permitem que a mixagem prossiga por meio de engenhosos softwares, quest\u00e3o de tecnologia. Tal como trocamos os moinhos de vento por m\u00e1quinas engenhosas alimentadas pela corrente de el\u00e9trons, os mesmos el\u00e9trons punham a girar os pratos das <i>pick-ups<\/i> e hoje fazem bits e bytes viajar pelo ciberespa\u00e7o e reverberar nas caixas que continuam ac\u00fasticas, apesar de toda a digitalidade do mundo. Os DJs se adaptaram aos novos tempos. Sim, concordo, h\u00e1 os saudosistas que ainda preferem o bolach\u00e3o na vitrolinha. \u00c9 verdade. E, verdade seja dita, uma boa mixagem est\u00e1 na m\u00e3o do DJ, seja anal\u00f3gico, seja digital. O segredo \u00e9 o ouvido. Voc\u00ea pode at\u00e9 gostar de um \u00fanico ritmo e querer ouvir as mesmas m\u00fasicas de sempre. Mas a <i>jukebox<\/i> n\u00e3o \u00e9 o espa\u00e7o do gosto pessoal. Virtual, a <i>jukebox<\/i> agora \u00e9 um App, menos a escola, esta permanece medieval, produzindo os tijolos que fundamentam suas catedrais \u2013 ou suas c\u00e1tedras. A diversidade \u00e0s vezes nos custa. Custa-nos sair das bolhas, dos comodismos. E h\u00e1 quem reclame. Como eu disse antes, o problema n\u00e3o est\u00e1 na diversidade, mas no salto, no sil\u00eancio entre uma faixa e outra. Os reclam\u00f5es, queixosos, sempre h\u00e3o de existir. \u00c9 como conta aquele velho livro: quando deus disse, fa\u00e7a-se a luz, algu\u00e9m l\u00e1 atr\u00e1s gritou, desliga essa porra! E a treta se fez, mas isso \u00e9 uma outra hist\u00f3ria. O segredo est\u00e1 na diversidade e na sensibilidade de quem ouve melodias que aparentemente nada tem que ver umas com as outras e as junta na ca(i)chola. A mixagem \u00e9 a arte do DJ. Arte que pulsa nos ouvidos. Que arranha a realidade. Professores deveriam ser DJs.<\/p>\n<p align=\"justify\">Eu, de DJs, sei muito pouco. E o pouco que sei \u00e9 de ver meu irm\u00e3o, nos \u00e1ureos tempos, mixando m\u00fasicas, juntando Twisted Sister com Pet Shop Boys. Talvez meu irm\u00e3o n\u00e3o soubesse, nessa \u00e9poca, que o que ele fazia l\u00e1 nos bolach\u00f5es de vinil seria o que eu faria nas minhas aulas. Naquela \u00e9poca eu sequer pensava em ser professor e, quem diria, acabei sendo. Comecei sendo professor <i>jukebox<\/i>, mas tempos depois, quando conheci Deleuze, eu entendi que professores, assim como os DJs, devem ser rizocultores, devem cultivar rizomas. Uns com m\u00fasicas, outros com saberes, que no fundo, l\u00e1 debaixo da terra, \u00e9 tudo a mesma coisa. Com Deleuze, que \u00e9 o nome de um fil\u00f3sofo, mas poderia ser o nome de uma banda, eu entendi que ser professor \u00e9 mixar meus conhecimentos, fazendo Matem\u00e1tica com a L\u00edngua Portuguesa, fazendo Hist\u00f3ria com a Qu\u00edmica, tra\u00e7ando tangentes com ora\u00e7\u00f5es coordenadas, buscando o sujeito da frase nas camadas eletr\u00f4nicas do \u00e1tomo. Ser professor \u00e9 juntar as aulas em <i>pot-pourri<\/i> curriculares: as 10 mais da 5<sup>a<\/sup>. s\u00e9rie B. Mixando aulas sem os saltos, sem sinais, sem pausas, jogando as carteiras para os cantos e chamando a galera para o meio do sal\u00e3o de aula, levando-os ao momento da virada, do scratch que junta a batida do cora\u00e7\u00e3o com a fina melodia do intelecto, feito Rammstein com notas de Vin\u00edcius, o de Morais. O remix que faz os dois Chicos, o Buarque e o Science, dan\u00e7arem na Roda Viva do Maracatu At\u00f4mico, contabilizando as rota\u00e7\u00f5es por minuto do planeta no espa\u00e7o de um olhar 43.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m, l\u00e1 atr\u00e1s, meteu a m\u00e3o na buzina. Tocou o sinal, fim da aula, fim da faixa. Na fluidez das minhas ideias, absorto nos caminhos poss\u00edveis dos rizomas, esqueci-me, perdi-me. Nervoso, o reclam\u00e3o buzinava e gesticulava. Baixei o vidro e gritei: CAETANE-SE! A treta se fez, mas isso \u00e9 uma outra hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">_______________<\/p>\n<p align=\"justify\"><b>Edgar<\/b> \u00e9 educador, professor de v\u00e1rias coisas em v\u00e1rios lugares. Mestre em Educa\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m estudou Letras e Filosofia. Misturador de tudo o que aprendeu nos discos com o que leu nos livros, escreve para mixar palavras, arranhar a realidade, cavar sulcos na terra, lan\u00e7ando sementes nos campos da mente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Som na ca(i)chola, DJ! por Edgar Domingo de Albuquerque Estava no carro, seguindo meu caminho para a universidade, ouvindo um roquenrou qualquer. Pensava na fluidez do tr\u00e2nsito. Sofr\u00edvel fluidez, pois a avenida marginal, de tr\u00eas pistas, num dado momento afunila sob a ponte que cruza o rio Sorocaba, estreitando o caminho. 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