EDUCAÇÃO PARA PAZ NA PRÁTICA

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O artigo relata um panorama das ações realizadas em nosso projeto de Educação para Paz. Oferece uma introdução aos conceitos de Paz Positiva e Não-violência. As atividades apresentadas durante o programa poderão ser usadas para quem deseja começar a implementação de um programa de Educação para Paz em sua escola ou comunidade. Desde 2018 venho desenvolvendo um programa de Educação para Paz, com jovens em parceria com o Educandário e Instituto André Luiz, os resultados e experiências deste programa estão relatadas neste artigo.

A intenção do artigo é inspirar e fornecer exemplos de como podemos implementar ações que transformam profundamente a vida dos jovens e nutrir valores humanos essenciais para a convivência harmônica e pacífica entre as pessoas no âmbito escolar e fora dele. 

Em minha trajetória como educadora pesquisei referências e busquei inspiração por  quase 30 anos de estudos e reflexões na área da Educação e Cultura de Paz. Ministrando cursos, oferecendo mentorias e participando em eventos internacionais e regionais compartilhando minha experiência, Eu espero que o artigo e nossas ações sirvam como sugestões que poderão ser aplicadas e adaptadas para grupos de jovens e adultos.

Regina Proença é Educadora, graduada em Filosofia, Mestre em Comunicação e Cultura, tem formação em Medicina Tibetana e atua como coordenadora do Coletivo Cultural Fora da Caixa. Onde desenvolve e implementa programas voltados para a Educação para Paz, Autoconhecimento e Saúde Emocional. Autora do ebook: Educação para Paz – Fundamentos e Aplicação Prática

Educação para Paz  Paz Positiva  Pedagogia da Paz  Não-violência

Educação para Paz na Prática – 2025

Este artigo é resultado das ações e propostas realizadas pela equipe do Coletivo Cultural Fora da Caixa com os jovens potencializados que frequentam o Educandário e Instituto André Luiz em Sorocaba, São Paulo.

Nosso programa de Educação para Paz vem sendo realizado desde 2018 com jovens com idade entre 11 e 17 anos que frequentam as aulas do grupo denominado “Motivando o Futuro”. Todos os anos há uma renovação dos participantes, pois o objetivo do Educandário é potencializar crianças e jovens oriundos da rede pública de ensino para conquistar bolsas de estudos em escolas particulares. Nos sentimos muito felizes quando nossos alunos conquistam bolsas e nos deixam para continuar seus estudos e avançar academicamente e pessoalmente em suas vidas.

No ano de 2024 dos 14 alunos que participaram de nosso programa, 5 conquistaram bolsas nas melhores instituições de ensino de nossa cidade.  Eles continuam apoiando as atividades do Educandário como voluntários em eventos especiais e também atuando como professores e professoras com as turmas formadas com as crianças mais novas. Temos vários ex-alunos que decidiram atuar como professores com a turma do “Sementinhas”, composto por crianças de 6 a 10 anos e na “Casa Acolhedora” com crianças de 3 a 5 anos.

No total, desde o início do projeto, são mais de 90 alunos potencializados que conquistaram bolsas em escolas particulares e vários frequentando universidades.

Gabriela Moreno, terminou seu colegial como bolsista no Objetivo e atualmente está cursando a faculdade de Pedagogia.
Leonardo e Yuri são bolsistas no Objetivo e dão aula de química e física para a turma do “Sementinhas”.

Todos são “cria da casa” e atuam como voluntários. Esses “jovens professores” sentiram um chamado para atuar no Educandário e contribuir de forma contínua com as atividades e aulas que acontecem de segunda à sexta no contraturno da escola. Essa inspiração e motivação é uma forma de retribuição e agradecimento pela oportunidade que tiveram ali, pois através do nosso programa obtiveram conquistas acadêmicas muitas vezes nem sonhadas. Vários de nossos ex-alunos decidiram abraçar a carreira de professor, alguns estão em formação e outros já concluíram a faculdade de Pedagogia e estão atuando na área. Isso nos dá muito orgulho e alegria pois sabemos da importância do papel do professor na vida de crianças e jovens. Também somos conscientes de quanto a educação pública deixa a desejar, em parte devido a precariedade, metodologias desatualizadas e a falta de apoio de diretores e gestores aos professores. Sem falar na violência no ambiente escolar. Não é incomum escutarmos relatos do que acontecem em diferentes escolas de nossa região, ficamos profundamente tristes, são muitos os percalços para aqueles que desejam aprender e frequentar as aulas. Isso reflete na vida e nas escolhas dos jovens que acabam muitas vezes por abandonar seus estudos e desistem de prosseguir na vida acadêmica.

O nosso programa de Educação para Paz teve início em 2018 e desde então continua a evoluir, devido ao caráter experimental e pioneiro, temos a liberdade de construir sua estrutura e  desenvolver atividades que reúnem estudos sobre Não-violência, Cultura de Paz, Liderança, Ecocidadania, Inteligência e Saúde Emocional.

Em 2024 inserimos em nosso programa as aulas sobre a Ecocidadania. Sentimos a necessidade de refletir sobre as mudanças climáticas de forma mais profunda, com dados atualizados e buscando inspirar ações que possam mitigar ou amenizar os efeitos da crise ambiental e do negacionismo. Convidamos os jovens a refletirem sobre como podemos melhorar a vida no planeta, entendendo as causas e soluções possíveis de serem implementadas. Afinal, eles serão os herdeiros de nosso avanço ou retrocesso sobre como cuidamos de nossa casa comum. Quanto antes eles forem sensibilizados e aprenderem sobre como preservar a Natureza melhor para todos! Ainda em 2024 iniciamos uma campanha de coleta de latinhas de alumínio, passamos a recolher o lixo eletrônico e dar um destino correto ao mesmo através da logística reversa, buscamos também elevar a consciência sobre os perigos que o planeta está passando. Apresentamos documentários que abordam os principais problemas gerados pela crise climática, soluções e propostas de mudança em nossos hábitos de consumo pessoal e coletivo.

Acreditamos que estas reflexões e conversas podem abrir caminhos, gerar ações que os levem a rever seus conceitos, inspirem um pensamento crítico e os levem a se engajar no sentido de preservar, reciclar e rever suas atitudes tanto em casa como na comunidade. O resultado de nossa coleta no ano de 2024 gerou R$ 500,00 com a venda do alumínio e essa quantia foi doada pelos alunos ao Educandário para consertos e manutenção em sua sede.

Além dos tópicos apresentados sobre Ecocidadania, os jovens foram convidados a apresentarem trabalhos com temas relacionados ao conteúdo durante nossos encontros. As apresentações são sempre fotografadas e filmadas para que depois eles possam fazer uma avaliação crítica dos trabalhos realizados.

Panorama pedagógico dos Encontros

Os encontros do programa de Educação para Paz acontecem uma vez por semana com a duração de uma hora e meia. Iniciamos a aula com uma breve prática de meditação silenciosa, exercícios de respiração e visualizações que promovem a calma, reduzem a ansiedade e geram um ambiente propício para o estudo e diálogo.

Ao iniciarmos o ano definimos algumas regras de convivência com o grupo, fazemos uma lista de atitudes desejáveis, por exemplo: fica proibido utilizar palavrões, xingamentos e bullying; não interromper quando o amigo está falando; manter em ordem a sala e os materiais coletivos (os alunos se alternam na limpeza e organização da sala de aula); não é permitido o uso de celulares durante a aula, etc. Em pouco tempo as regras são assimiladas e são raros os casos onde temos que intervir.

Também conversamos sobre quais são os Valores e Virtudes importantes para eles, escrevemos uma lista a partir das sugestões deles e que norteiam as ações do grupo.

Introduzimos o conceito do Tikun Olam, uma palavra que tem origem no hebraico e que significa “consertar ou aprimorar o mundo”. A idéia foi inspirá-los a participar no mundo com seu talento ou desejo de melhorar a vida em sua comunidade ou planeta. Eu tive contato com este conceito durante a apresentação de educadoras no Fórum Global de Educação na Universidade Azim Premji em 2025 na cidade de Bangalore, Índia. Achei muito interessante e os exemplos compartilhados ali foram realmente inspiradores. Esse conceito aborda uma forma prática de co-criação da Obra Divina e é um convite para que cada um faça a sua contribuição pessoal. Alguns manifestaram o desejo de ajudar a plantar árvores, outros querem ajudar animais abandonados,vários decidiram arrecadar e doar roupas para famílias em necessidade e também tivemos alunas que queriam ajudar no processo de alfabetização de crianças em situação de vulnerabilidade ( infelizmente não conseguiram realizar as ações pois a família achou que a intenção delas era reportar ao Conselho Tutelar a situação precária das crianças).

As ações grandes ou pequenas colaboram na formação de caráter dos jovens, diminuem o egoísmo e abrem o coração para a solidariedade. Os obstáculos existem mas a determinação de cada é o que mais importa.

Testes e avaliações

Não somos adeptos de provas em nossas turmas, desde o início dos encontros aplicamos diferentes questionários e realizamos testes que evocam mais uma auto-avaliação e apreciação crítica de desempenho acadêmico e ético. Não incentivamos a competição ou comparação entre os participantes, acreditamos nas dinâmicas de cooperação e na apreciação de talentos individuais que são valorizados e celebrados durante os encontros.

Aplicamos um Teste Vocacional com o grupo com o intuito de despertar o interesse em conhecer as profissões que poderão compor o leque de escolhas no futuro. Alguns imediatamente se identificaram com o resultado enquanto outros foram surpreendidos e passaram a prestar mais atenção aos interesses e facilidades naturais que sua personalidade manifesta. Claro que estas inclinações podem mudar de direção à medida que eles evoluem academicamente, o caminho à frente ainda é longo e os resultados são encarados apenas como uma referência.

Algumas atividades que realizamos ao longo do ano foram inspiradas pelo modelo pedagógico da escola inovadora Riverside Learning Center, onde tive o privilégio de fazer um estágio em Fevereiro de 2025 na cidade de Ahmedabad, Índia.

Entre as práticas que adaptei para a realização com o grupo está o Círculo de Apreciação, uma dinâmica onde os jovens são convidados a dizer algo de positivo ou fazer um elogio aos colegas que estão em nosso grupo. Para muitos, receber um elogio ou ter uma característica de sua personalidade exaltada publicamente é algo muito raro de acontecer. Algumas das observações compartilhadas entre eles foram agradecimentos pelas amizades que nasceram ali na sala, a cooperação na hora de estudar juntos, a sinceridade, lealdade e as brincadeiras que são feitas entre eles. Depois dos elogios eles também foram convidados a fazer observações críticas aos colegas, desde que acompanhadas por uma estratégia ou sugestão de como a pessoa poderia melhorar aquela atitude. Por exemplo: Uma aluna criticou o fato do colega conversar muito durante a aula e isso atrapalhar os colegas e o desempenho dele mesmo. Sua sugestão foi de que ele mudasse de lugar e sentasse mais próximo da professora para evitar que a conversa o atrapalhasse. Outra crítica foi em relação a brincadeiras que envolviam colegas e que não estavam se sentindo confortáveis com o tipo de colocações feitas. O pedido foi que essas situações fossem evitadas para que não acontecesse nenhuma discussão desnecessária. Essa dinâmica ofereceu uma oportunidade ao grupo de colocar suas insatisfações de forma educada, num ambiente seguro e através do diálogo. Acho mesmo que se todos nós fossemos ensinados a dialogar e expressar nossos sentimentos sem a intenção de ofender ou machucar o colega, buscando oferecer alternativas para sanar a situação antes que a discórdia se transforme em um conflito e afaste as pessoas é um modo muito eficaz de colocar a Educação para Paz em prática! Essa é uma aplicação do conceito de Paz Positiva, onde não estamos tentando resolver um conflito, estamos fortalecendo os laços para que os conflitos não aconteçam. E mesmo quando os conflitos são inevitáveis, entendemos que a energia do conflito não precisa ser negativa, podemos direcioná-la de forma útil para alcançar os objetivos que beneficiem o grupo e não apenas um indivíduo. Não precisamos concordar com tudo para evitar confrontos, mas podemos aprender a discordar elegantemente e manter as relações saudáveis e sinceras, sem prejuízos para nenhuma das partes. Conheço vários adultos que são incapazes de ouvir uma crítica sem se colocarem na defensiva, agredirem verbalmente ou fisicamente o outro quando são contrariados em suas opiniões e atitudes. Essa metodologia de diálogo é acompanhada de sugestões que mostram que a relação de amizade está acima das diferenças e que quando a situação está clara e é pontual, a chance dessa relação ser fortalecida é muito grande. Um dos principais objetivos de nossos encontros é aprimorar as habilidades de comunicação e de escuta de nossos jovens. Quem me dera eu tivesse tido essa experiência quando adolescente! Teriam feito muita diferença nas minhas relações na vida adulta.

Turma do “Motivando o Futuro” que participou do projeto em 2025.

No primeiro semestre eles foram convidados a apresentar trabalhos temáticos para o grupo, os trabalhos poderiam ser apresentados em dupla ou individualmente. Entre os temas escolhidos para as apresentações estavam: Lixo Eletrônico, Poluição dos Mares, Desmatamento no Brasil, Demarcação de Terras Indígenas, Desertificação, Combustível Fóssil e Energia Limpa, Descongelamento das Geleiras, Crise Climática, Agroflorestas, Rio Sorocaba e Agricultura Regenerativa.

Como preparação para as apresentações, eles foram introduzidos ao projeto piloto que estamos testando chamado Mídia Minds. Os jovens tiveram aulas com Ricardo Albuquerque sobre como fazer um uma apresentação em Powerpoint, como utilizar o Canva, selecionar as fotos, tamanho das fontes e referências de pesquisa. Além disso, também foi abordado o uso de Inteligência Artificial, com o objetivo de criar um repertório de usos possíveis, bem como as relações éticas pertinentes e as consequências do uso indevido dessa ferramenta.

As apresentações são uma forma de aprimorarmos as habilidades de comunicação dos jovens, eles são avaliados pelo grupo e se auto avaliam através dos vídeos que são apresentados com todos os temas. Ali vemos a dinâmica do Círculo de Apreciação brilhar, a cada vídeo apresentado o grupo faz anotações sobre os pontos positivos, negativos e onde o aluno precisa melhorar. Esse formato possibilita o aprendizado mas também cria uma situação onde a atenção aos detalhes  e a qualidade do trabalho apresentado também é analisado. Não há um sistema de notas, as atividades são explicadas, os erros são corrigidos e todos podem apresentar uma segunda vez caso tenham ficado nervosos, os slides não tenham ficado tão bons ou tenham recebido e incorporado sugestões de mudanças feitas pelos amigos ou por nossa equipe. A idéia é que eles aprendam a dar sua opinião de forma respeitosa, construtiva e saibam como receber uma crítica ou elogio conforme a qualidade de seu trabalho e empenho. Ninguém “passa pano” pra ninguém, se ficou bom eles elogiam, se não ficou, sugerem mudanças ou oferecem ajuda para o colega de como melhorar sua apresentação.

Entre as atividades que realizamos está a Introdução ao Pensamento Crítico. Adaptamos algumas atividades do currículo Wellspring desenvolvido pela educadora e artista plástica indiana Vinita Modi que atua na escola Riverside.

Vinita Modi e Regina Proença na Escola Riverside em Ahmedabad, Índia. 2025.
Material didático desenvolvido por Vinita Modi para a escola Riverside Learning Center – Ahmedabad, Índia.

Essas reflexões são importantes para avaliarmos a qualidade existencial dos jovens.

Entendemos os desafios que se apresentam na adolescência, vivemos um momento onde as redes sociais estão cada vez mais presentes e a comparação com a vida de influencers vazios é muito cruel. Isso gera uma situação de ilusão, uma falsa facilidade para ganhar dinheiro gerando conteúdos na internet. Essa é uma das seduções mais comuns entre os jovens e adultos também, infelizmente. O esforço, estudo, dedicação e o aprimoramento pessoal é muitas vezes considerado um obstáculo às conquistas e isso gera uma falta de motivação generalizada. Buscamos abordar e esclarecer essas questões durante nossos encontros, enfatizamos o quanto é importante manter os pés no chão e próximos da realidade. Sonhar é importante, mas se iludir é muito perigoso.

Introdução a Neurociência e Inteligência

Entre os temas que trabalhamos com os jovens estão pesquisas na área da Neurociência e Inteligência Emocional, nossas referências são as pesquisas realizadas pelo Dr. Richard Davidson e Daniel Goleman.

Ted Talk com Dr. Richard Davidson

Incentivamos os participantes a fazerem anotações livres e criativas sobre os conteúdos apresentados, a liberdade de criar sua própria maneira de estudo e memorização do conteúdo possibilita um envolvimento maior com os temas e as anotações podem ajudar na apreciação dos assuntos na hora de escolher os temas das apresentações finais de acordo com os interesses individuais.

É muito importante fazer uma conexão entre as práticas contemplativas e a qualidade existencial dos jovens. Oferecer estratégias para reduzir a ansiedade, aumentar a capacidade de foco e trazer a mente para o momento presente, podem fazer uma grande diferença na qualidade de vida e escolhas na trajetória desses jovens. Sabemos o quanto a interação através dos celulares e redes sociais pode atrapalhar o desenvolvimento cognitivo e emocional quando não há um uso equilibrado. O empobrecimento das relações de amizade e falta de integração social podem levar a depressão, isolamento, solidão, comportamentos auto-destrutivos e infelizmente até o suicídio. Desenvolver as habilidades de atenção plena, escuta ativa e comunicação, contribuem para o autoconhecimento e auto-regulação. Lembrando que as práticas de meditação e silenciamento ensinadas ao grupo não estão vinculadas a nenhuma religião e podem ser praticadas independente da crença individual de cada um. Elas fornecem uma base para que com o tempo a capacidade de bem estar, resiliência e concentração possam se fortalecer.  

Sobre as Estratégias de Não-violência e o pensamento de Mahatma Gandhi

As reflexões sobre as estratégias de Não-violência são apresentadas aos jovens através de aulas expositivas e a exibição da série documental “Uma força mais poderosa – Um século de conflitos não-violentos”, o documentário mostra o movimento de Independência da Índia liderado por Gandhi onde a comunidade se uniu e aplicou estratégias como Desobediência Civil, Não-violência (Ahimsa), Marchas Pacíficas, Ocupações e Boicotes.

Série documental – “Uma força mais poderosa – Um século de conflitos não-violentos”, disponível no Youtube.

As imagens são muito inspiradoras e transformam a maneira como os jovens entendem as

dinâmicas de poder e liderança. Abaixo algumas anotações de alunos a respeito de Mahatma Gandhi:

Ao se familiarizarem com a metodologia da não-violência e perceber o quanto as conquistas de direitos civis baseados nessas estratégias foram eficazes, não só na Índia como também no processo de dessegregação racial nos Estados Unidos, na Dinamarca no período da Ocupação Nazista entre outros países como Chile, Polônia, África, etc. Há uma mudança na forma como os jovens como eles interagem e absorvem esse conhecimento, gerando um novo padrão de comportamento mais alinhado com valores humanos e ativismo social. Algo poderoso floresce e nossa função é nutrir esses valores e refletir sobre como podemos implementar essas estratégias em nossa comunidade.

Para aprofundar o estudo e trazer exemplos de pessoas que consideramos inspiradores. Os jovens são convidados a estudar e apresentar individualmente trabalhos temáticos para o grupo. Os temas abordados este ano foram: Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Dessegregação Racial nos EUA, Nelson Mandela, Malala, Dalai Lama, Madre Teresa de Calcutá. Irmã Dulce, Paulo Freire, Greta Thumberg. Eles foram orientados em como fazer a pesquisa, criar os slides e apresentar para a classe. Todas as apresentações foram filmadas, assistidas e avaliadas pelo grupo no Círculo de Apreciação.

Abaixo o link com as apresentações individuais, alguns tiveram mais facilidade que outros mas a evolução na qualidade das apresentações foi incrível, a autoconfiança, autocrítica saudável e a vontade de melhorar e corrigir “falhas” apontadas durante o Círculo de Apreciação criam uma relação de cooperação e respeito pela opinião dos amigos que reconhecem que o objetivo é melhorar o trabalho e apresentação, não simplesmente criticar e definir um padrão de notas.

A Arte como ferramenta para o autoconhecimento

Sempre incentivamos a criatividade e a expressão artística em nossos encontros, a pintura de Mandalas é uma atividade que além dos efeitos positivos na redução de ansiedade, aumenta o foco e atenção. Promove também o bem estar e auto estima, as cores e os resultados obtidos sempre nos surpreendem, a beleza e a diversidade dos padrões nos mostra com simplicidade que cada um tem algo de bom e bonito e através das cores isso se revela e enche a sala de boas vibrações. Pelas fotos e vídeos dá pra perceber a harmonia, a leveza e a expressão de serenidade dos jovens.

Exemplos que inspiram e formam convicções

Acreditamos muito no poder do exemplo, quando um jovem encontra inspiração em seres humanos extraordinários como os mencionados acima, o nível de aprimoramento ético e social é elevado. Percebemos isso nas respostas dos questionários de avaliação do programa. Ver um adolescente falar sobre o impacto que conhecer as estratégias difundidas por Mahatma Gandhi causou em sua psique e postura na vida nos enche de orgulho e nos motiva a continuar nosso projeto.

Antes de encerrar as atividades do ano, aplicamos dois questionários de avaliação e autoavaliação com objetivo de registar as impressões e sentimentos dos jovens ao longo do percurso do programa. Eles descrevem as atividades que mais gostaram, quais as personalidades que causaram maior impacto e como o conteúdo apresentado pode ser aplicado em suas vidas tanto acadêmicas quanto pessoais. Aqui salientamos algumas das respostas recebidas.

Conclusão

Cada turma que participa do programa tem indivíduos que nos desafiam e nos surpreendem. Mesmo que no ano seguinte eles não possam frequentar os encontros, pois a chance de conquistarem bolsas de estudo em escolas particulares é grande e muito desejado por nós e pelos jovens. Sentimos que eles estarão mais preparados para enfrentar os desafios a partir de uma base mais empática, equilibrada emocionalmente, com habilidades de escuta e comunicação aprimoradas, com a mente e coração despertos para colaborar de forma pró-ativa na comunidade e no mundo.

Nossos “bolsistas” continuam a receber apoio do Educandário e como mencionado acima, muitos voltam e oferecem seu tempo e talento para ajudar com aulas ou atividades de apoio nos eventos ao longo do ano, é um círculo virtuoso que se fortalece e nos permite acompanhar de perto a evolução pessoal e a amizade que se estabelece entre as crianças, jovens, professores e os fundadores Ana Paula Cardoso e Pedro Henrique Cardoso Navarro. Seres humanos extraordinários que trabalham incessantemente pelo avanço das crianças e jovens através da Educação. Temos muito orgulho em fazer parte deste trabalho lindo que tem resultados maravilhosos e possibilita através dessa parceria a realização de projetos como o do coletivo Fora da Caixa.

O programa de Educação para Paz vem sendo implementado no Educandário desde 2018, com breve interrupção durante o período da pandemia. A cada ano introduzimos novos conteúdos, dinâmicas e reflexões que abordam a situação e fatos que estão acontecendo no período dos encontros como a guerra da Ucrânia, os conflitos em Gaza, eleições, etc. Nos aproximamos dos temas buscando uma reflexão e trazendo informações corretas e referências seguras para mitigar os efeitos das fake news e manipulação de opiniões. A estrutura dos encontros é mantida, respeitando os eixos principais das relações “Eu comigo mesmo”, “Eu com os outros”, “Eu com o mundo”. Essas dimensões são a base reflexiva do programa, incluindo os seguintes temas transversais: Saúde Emocional, Inteligência Emocional, Práticas Contemplativas, Liderança, Ecocidadania, Justiça Social, Não-violência, Ativismo, Ética, Neurociência, Talentos e Vocação (Tikun Olam), Valores Humanos, entre outros.

As atividades e temas seguem um fluxo determinado por cada grupo, observamos e adaptamos as aulas com liberdade e deixando que os jovens participem no processo. Estamos constantemente aprendendo uns com os outros e esse aprendizado é a maior riqueza que podemos encontrar no ofício de ensinar. Para encerrar gostaria de citar a poeta Cora Coralina, que reflete o sentimento mais puro e a mais alta realização de um professor. “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.”

Celebração com os jovens que participaram do programa no último encontro de 2025

Fizemos um registro em vídeo de nosso encontro de encerramento e  refletimos sobre a importância o que os participantes gostaram de aprender e qual foi a experiência mais importante que tiveram durante os encontros. O resultado dessa conversa será divulgado na forma de um mini doc, um registro de como a pedagogia da paz pode transformar, inspirar e expandir a consciência emocional, social e ambiental dos jovens.

Esperamos que nossa experiência inspire outros educadores a adotar estratégias de Não violência e Educação para Paz em suas classes ou grupos de apoio social. Nosso único intuito é oferecer um caminho de reflexão, autoconhecimento e responsabilidade ética para com o mundo e seres sencientes.  Criando seres humanos mais compassivos, empáticos e preparados para buscar seus direitos de forma pacífica e baseada em valores humanos.

Mãos em prece,

Regina Proença

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