Sobre o trabalho, vocação e contas pagas

Fora do mundo imaginário do Facebook, a vida não está fácil. Se você está com todas as suas contas em dia, vive um relacionamento sem crise, trabalha no que ama, consegue se equilibrar mentalmente e espiritualmente, tem tempo para ir à academia, ao restaurante japonês, pedir uma pizza quando tem vontade, está magra(o) e ainda pode viajar nos feriados, pode ter certeza que sua vida é um sonho.

Pena que para a maioria este sonho acaba quando toca o despertador pela manhã e a mente começa a lutar em buscar soluções para chegar ao final do dia sem surtar. Podemos fazer cara de paisagem, disfarçar e postar uma foto bem linda nas redes sociais para que ninguém perceba os sinais de preocupação e insegurança em relação ao futuro. Mas no fundo, sabemos o abismo que há entre a fantasia e a realidade. As redes sociais levam as pessoas a pensar que ser feliz é não ter problemas, é estar flutuando numa nuvem de purpurina e meditar nas montanhas. Mas será possível ser feliz quando os problemas se acumulam junto às contas e frustrações? Como sair desse turbilhão mental e sorrir para o mundo com o coração leve?

Algumas sugestões podem nos auxiliar nos momentos mais críticos. Mesmo que inicialmente você possa achar simples demais, não custa nada tentar…

Antes de mais nada: respire fundo! Quando estamos angustiados, tristes ou nervosos, a nossa tendência é respirarmos de forma curta e superficial, assim não oxigenamos nosso corpo adequadamente. A energia vital, também conhecida como prana, não consegue vitalizar nosso corpo de forma integral, gerando confusão mental e um cansaço profundo, e ao final do dia nos sentimos ainda mais desanimados para enfrentar os desafios do cotidiano.

Tudo passa! Mesmo as piores coisas que parecem “durar uma eternidade” são, na maioria das vezes, circunstâncias que podem mudar a qualquer momento. Quantas vezes não sofremos mais do que o necessário? Acreditamos que a vida será sempre igual, como se nada pudesse nos acontecer de bom, lidamos com os problemas como se fossem uma condição de vida. Mas afinal, tudo passa! Tanto as coisas boas quanto as mais complicadas passam. Aliás, a impermanência é a única coisa, de fato, permanente.

Obstáculos e problemas nunca aparecem para nos derrubar e sim para nos tirar de uma situação de acomodação, de inércia. Quando estamos empurrando a vida com a barriga, somos atirados pelo destino em precipícios que nos fazer aprender a voar em plena queda. Na hora do tombo, o pânico pode imperar, mas a cada situação nova, percebemos que nossas forças são testadas e a vida se mostra mais generosa quando a enfrentamos com coragem. É como um tonificante para nossa criatividade, o resultado final pode ser melhor do que esperávamos. Basta respirar profundamente e ir em busca de nossa energia mais profunda, essa força que vem da alma nos sustenta. Como antídoto, podemos dar vazão à nossa vocação, esse dom divino que todos temos e que nunca devemos abandonar. Seguir o nosso Bliss, como diria Joseph Campbell, nossa bem-aventurança. Acredito que temos o dever espiritual de exercer nossa vocação, nem que seja na forma de hobby, pois nem tudo que fazemos precisa se transformar em dinheiro. Essa lógica do lucro pode nos impedir de criar novas oportunidades em nossa vida. Quando renegamos nosso dom, morremos de sede ao lado da fonte. Só porque você não pode viver (entenda lucrar) com seus sonhos, não significa que deve abandoná-los. O equilíbrio está no caminho do meio. Trabalhar só para pagar as contas nem sempre nos satisfaz, mas ficar parado e sonhar em ser milionário não o ajudará em nada. Se iludir é diferente de sonhar. Viver de ilusão nunca é a melhor alternativa.

Só pra lembrar que nem tudo pode ser comprado, as melhores coisas da vida como amor, alegria, fé, paz de espírito e amigos, não são vendidos por aí. Por isso, a relação entre as coisas que você quer TER e as que deseja SER não devem ser confundidas e transformadas em produtos.

Nada é perfeito. Viver dá trabalho, ser feliz dá trabalho e se relacionar também. Desistimos muito fácil das relações, empregos e sonhos, como uma criança mimada que abandona um brinquedo assim que percebe que pode ter outro. Nos empenhamos muito pouco em nosso autodesenvolvimento e depois culpamos a vida, os outros ou Deus pelos nossos fracassos.

Esquecemos que o paraíso, este estado idílico de bênçãos e alegrias sem fim, está dentro de nós. O ar que respiramos, o sol que ilumina nossas vidas, as estelas que brilham no céu e até as nuvens carregadas de chuva são verdadeiras bênçãos que nos esquecemos de agradecer. Ficamos tão focados em nosso próprio umbigo e nosso micromundo, que esquecemos que estamos aqui só de passagem. O que não significa que estamos a passeio, somos apenas inquilinos de nosso corpo. Por isso, devemos usar nosso tempo de forma mais elevada, aproveitar os dias que nos restam da melhor maneira possível. Quando deixarmos essa vida, os problemas, boletos, posses e amores ficarão para trás. Nada disso levaremos para a próxima etapa.

Sem entrar em debates sobre a continuidade da alma, céu ou inferno, fim ou recomeço, ficamos apenas com aquilo que fazemos de bom. A única coisa que deveríamos nos preocupar em cultivar é um bom coração. São as nossas boas ações que ao final nos sustentarão, ou seja, os méritos gerados por elas. Há uma passagem zen que diz que o homem deveria buscar a iluminação como alguém que tem os cabelos em chamas busca a água. Sem perder tempo com bobagens.

Se sua vida não está lhe permitindo sorrir, se suas relações são tóxicas e sua saúde está debilitada, lembre-se que você pode mudar, problemas vêm e vão, contas são pagas e outras virão…
Porém, o ar que você respira não custa nada, o sol brilha mesmo quando seu humor não ajuda, as flores embelezam o mundo mesmo que escondidas no meio da floresta, onde não há ninguém para contemplá-las. Mas nada, absolutamente NADA permanece igual.

A situação que está vivendo hoje, daqui a um ano ou mesmo uma semana, pode ser completamente diferente. Tenha fé na vida! Não desista de seus sonhos! Faça de sua vocação uma forma de terapia e seja menos fatalista. Mesmo porque logo os seus dias estão estarão encerrados nesta vida. Não perca seu tempo com coisas ou pessoas que não importam.

Faça de sua vida uma obra de bondade, beleza e sabedoria. Agradeça pelo que já tem ao invés de se lamentar pelo que não tem. Às vezes, não conseguir aquilo que se quer é uma bênção disfarçada…

Carpe diem!

Regina Proença é filósofa, tradutora e coordena os projetos de Cultura de Paz no Coletivo Cultural Fora da Caixa.

Comentários Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *