Fiquei pensando em como nos deixamos apagar quando estamos em nossa zona de conforto. Observo ao meu redor adultos e jovens que pensam apenas em garantir um bom salário e não possuem, na verdade, um sonho a ser realizado, algo a ser conquistado em pequenas ações – querem ter tudo de uma vez e para sempre. Nem mesmo em contos de fadas, onde o príncipe herda um reino sem esforço nenhum e tem tudo a seu favor, o final costuma ser feliz – se não há conquista, empenho, perigo ou aventura, tudo fica chato e sem graça; aquele reino que fora próspero e feliz se transforma em um deserto. Infelizmente, esquecemos que ser um sonhador não é ser um iludido, e sim estar lúcido e em plena busca de algo sagrado; a cada dia que nos aproximamos de nossa conquista, nos tornamos mais fortes e resilientes.

Parece que hoje nada é mais interessante que nosso próprio umbigo ou as telas de nossos celulares. Padecemos de falta de motivação e adoecemos sem sair do lugar. Aprender algo novo pelo prazer de estudar, ajudar alguma causa ou encarar uma aventura que traga benefícios para si e para os outros, parecem tão distantes quanto uma viagem interestelar. Fiquei horas acordada em minha cama imaginando como seria minha vida se por acaso eu ganhasse um milhão de dólares (ou simbolicamente uma quantia de dinheiro que tirasse minhas preocupações com boletos e despesas a médio ou longo prazo). Fiquei imaginando qual seria minha rotina, se deixaria meu trabalho e qual seria o propósito de minha vida.

Cheguei a algumas conclusões e estou contente em perceber que minha vida já é perfeita. Não pararia de trabalhar pois meu trabalho como educadora é a maior fonte de auto realização que poderia ter. Muito provavelmente multiplicaria ainda mais os programas de Educação para Paz em escolas carentes e comunidades onde há alto índice de violência e abandono; estudaria com mais afinco e dedicação junto a outros mestres que admiro no mundo, não para benefício próprio apenas e sim para aprimorar os programas que idealizei; minhas viagens seriam culturais e espirituais, pois acho que quanto mais absorvemos as energias de lugares sagrados, mais rápido e melhor alcançamos a sabedoria; não ia gastar meu dinheiro em coisas, investiria em experiências e cultura. Já tenho coisas demais e isso pode se transformar em um empecilho quando buscamos leveza de alma (e de bagagens). Nada de ostentar. Acho muito cafona e de péssimo gosto gastarmos muito dinheiro em carros, casas gigantescas e roupas de grife. A “embalagem” pode até ficar mais atraente mas se o conteúdo não for bom, de nada vai me adiantar. Acredito que o melhor investimento seria em comida, viagens e livros. Ajudaria meus amigos e parceiros a realizarem seus sonhos, desde que não fossem apenas sonhos de consumo e sim a concretização de suas ambições espirituais e vocacionais. Apoiaria causas nobres; financiaria estudos e pesquisas que trouxessem benefícios à comunidade em geral.

O esvaziamento de sentido que observamos em crianças, jovens e adultos gera situações de violência, separação e leva para o abismo vidas que estavam ainda para florescer. Digo isto pela grande quantidade de pessoas que tenho encontrado com quadros de depressão, síndromes do pânico, auto-mutilação e solidão. Em sua maioria, estão enfrentando uma crise existencial, sentem-se perdidos e sem motivação para viver e, certamente, remédios não dariam conta de oferecer a solução.

Muito se tem falado do filme “Coringa”, que retrata a vida de Arthur, um ser humano que foi vítima de abusos dentro e fora de casa, sofreu com o isolamento, foi ridicularizado e violentado na rua e no trabalho e não teve a sorte de encontrar alguém disposto a ouvi-lo com empatia e compaixão. Tinha sempre que ter uma cara de “feliz”, com um sorriso falso mas constante, para assim tentar ser visto pelos outros. A crueza da verdade que ele nos mostra causa um impacto em nossas almas, mas temos que ir além do mal-estar e rever nossa postura de indiferença e cinismo perante ao sofrimento nosso de cada dia; temos que olhar em volta e acordar para o fato de que temos que incluir os “outros” em nossa compaixão.

A sociedade que gerou sua alma perturbada e sofrida muito se assemelha à nossa, que lucra com a desgraça alheia e a usa como produto a ser comercializado, tanto em programas de tv quanto na fabricação de medicamentos que mantêm as doenças num nível controlável e constante para que a cada ano tenhamos mais zumbis consumindo e gerando riqueza aos laboratórios. Não geram saúde e nem propostas de cura, apenas a manutenção de um estado de insanidade administrável. Só que às vezes não dá certo, alguém surta, se suicida e/ou mata colegas de escola, descarrega sua metralhadora em um supermercado, atropela transeuntes em avenidas pelo mundo, coloca bombas em templos e praças.

Ah, se eles soubessem… diria Arthur… todos foram horríveis com ele!

Se continuarmos com nossa indiferença, caminharemos sem sentido, sem sonhos, sem amigos verdadeiros e sem refúgio. A ficção vai se tornando realidade e a tragédia pode estar vivendo ao seu lado. Ainda há tempo de mudar o fim desta estória, basta abrirmos nossos olhos, ouvidos e corações, mesmo que seja dolorido, assustador e inquietante. Temos que encontrar dentro de nós a missão divina que viemos realizar neste mundo, descobrir qual é a mensagem que temos inscrita em nossa alma, ir ao encontro da aventura da auto realização, compartilhar nossos saberes, receitas e tempo com quem precisa. Nada adianta fazer horas de meditação, retiros, consultas a astrólogos, coach, terapeuta e pai de santo se não abrirmos mão de nosso egoísmo, avareza, indiferença e ignorância.

Ser generoso, compassivo, bom ouvinte, parceiro e apoiar causa nobres pode gerar muito mais méritos, degraus que nos levam em direção à felicidade, sabedoria e amor. Ações valem mais que palavras, em última instância, são nossas ações que nos protegem dos males da alma, da solidão e do medo do futuro.

Proteja-se do vazio existencial, encha sua vida de bondade, compaixão, serviço ao próximo e milagres se multiplicarão à sua frente. Não é preciso ter fé, ações geram reações, assim é a infalível lei do Universo. Saia de sua zona de conforto e crie algo de bom no mundo! O universo agradece!

Seja atuante.

Regina Proença 

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