“Francofonia” é daqueles filmes que provocam sensação de abandono quando terminam.
Algo assim como se quiséssemos continuar experimentando indefinidamente a proposta estética de Sokurov.
Como se tivéssemos sido arrastados para dentro da realidade e nossa “devolução” ao que entendemos como “mundo”, pelo autor, ao término do filme, significasse retornar para a ilusão do que tomamos como vida.
Sair do Cine Belas Artes que tanto amo por tudo que já vi ali desde que existe, e me deparar com o entroncamento da Rua da Consolação e a Avenida Paulista, após assistir “Francofonia”, me faz chorar compulsivamente.
Filmes de autor costumam não agradar aos menos exigentes.
Ficou decididamente fora de moda gostar de filmes de autor.
Não, não nos iludamos quanto à certeza que nos invade quando estamos diante de um “filme de autor”.
Quando isto acontece não cabe discussão acerca da obra de arte postada diante de nosso incrédulo olhar: sabemos, necessariamente, que estamos frente à obra de um autor.
Resta-nos apenas fruir, fruir, fruir indefinidamente…
O objeto do filme é o Louvre.
Ou melhor, o objeto do filme é a arte protegida no recinto do museu.
Mas estamos em guerra e os bombardeios na segunda guerra poderiam danificar a edificação e seu conteúdo.
Enquanto assistia ao filme perguntei-me: quando não estivemos em guerra ?
De modo que o dispositivo-museu é como que uma embarcação transportando através da história, em mar bravio, os conteúdos de valor artístico que a humanidade preservou da barbárie.
Quantos containers foram perdidos na travessia ?
Quantas mensagens inseridas na garrafa se perderam na areia de praias desertas ?
Quantas preciosidades se perderam nos bombardeios e saques realizados contra o Hermitage de São Petersburgo ?
Na Paris ocupada pelos alemães encontramos em franca relação o diretor de Louvre e o oficial alemão responsável pela “preservação” dos castelos, museus e obras de arte existentes em solo francês.
A câmera de Sokurov é o próprio Sokurov.
É ela que interpela Tchekhov e Tolstoi.
Como despertá-los do sono em que dormem profundamente ?
É ela, a câmera de Sokurov, que remove camadas de embuste que as razões de estado impõe à história contada pelos vencedores.
Ao Louvre não ocorreu o que ocorrera em São Petersburgo.
As obras foram insidiosamente transportadas por resistentes franceses para castelos que protegeram-nas da apropriação do invasor.
Ela, a câmera, sempre ela, a câmera e sua representação do olhar, interpelam a história e seus personagens que tal qual Tchekhov e Tolstoi parecem dormir profundamente.
Onde estão exatamente os limites da tênue fronteira que separa (separa ?), na França invadida pelos alemães, o invasor do resistente, e este do colaborador ?
Se os vestígios da existência histórica das personagens foram apagados dos relatórios oficiais, como recuperar a verdade dos fatos ?
Enfim, como despertar nossos personagens e artistas, ou antes ainda, como despertar a verdadeira obra de arte do seu sono dogmático e fazê-los todos simplesmente “falar”, se o sinal da comunicação insiste em colapsar intermitentemente ?
“Francofonia” é o exercício cinematográfico desta indagação.
Funciona no limiar da própria carpintaria.
Quase que temos a impressão de que o filme é construído no instante mesmo da projeção, ainda que saibamos racionalmente que as imagens foram gravadas.
Talvez a aparição da claquete seja propositalmente mostrada para que não esqueçamos que estamos diante de um filme.
Talvez a presença cênica do diretor seja intencionalmente calculada para distorcer, no limite, os vícios do olhar do cinema clássico que sempre pretendeu desaparecer com o autor.
Sokurov já me impressionara demasiadamente com seu “Fausto”.
Com “Francofonia” alcança o estágio maduro dos autores que têm consciência do que fazer com as imagens.
Talvez, e principalmente com a morte recente de Kiarostami, seja o maior dentre os vivos.

Luiz Carlos Andrade Santos

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