Coragem 

Antes que a aula termine, peço a ela que fique um pouco mais depois do horário. Não que eu acredite que possa ajudar. Não mais. Fiz isso durante os dois primeiros anos, mas não adiantou. Pelo contrário, quanto mais eu tentei ajudá-las, mais elas se afastaram de mim, me evitaram. Tive noites de medo, de desespero. Em vão. Então, bem devagar, com grande esforço, fui me distanciando dessas vidas tão frágeis, desses corpos franzinos que não precisam de ajuda, mas de estruturas permanentes que eu não posso oferecer.
Quando o que se tem para dar é apenas salvação, não se tem nada. A salvação é patética. Uma visão unicista e distorcida da realidade, baseada na nossa crença pessoal do que é melhor para todos. A meu favor, o fato de ser uma crença honesta. Mas as crenças não bastam. Honestas ou não. Acreditar é perigoso e doloroso.
Foi um tempo de conversas e pensamentos que não vingaram. A cada insucesso, a teimosia de uma nova tentativa, até que as opções se esvaziaram e eu finalmente assumi o que os sinais gritavam para mim havia muito tempo: que a normalidade vista do meu ponto de vista era somente uma farsa ruim.
A aula acabou. Agora, estamos só nós duas. E, estranhamente, não sei o que dizer. Eu e meus pontos de vista já testados, sem valia. Eu e minhas promessas, até então cumpridas, de não me envolver nunca mais. Mas hoje não estou conseguindo me conter. Não que ela seja assim tão diferente das outras. Os mesmos olhos baixos, o mesmo riso pouco, as mesmas unhas pintadas de vermelho, o mesmo cabelo comprido alisado, o mesmo batom escandaloso, as mesmas manchas roxas ocasionais no pescoço, o mesmo perfume barato e forte. A mesma menina a quem dediquei conselhos e noites insones. Em outros tempos, em outros corpos. A compulsão da ajuda, contida por tantos anos, volta. E eu me reaproximo do caos.
Luísa Cristina tem 14 anos. E é preciso que ela tenha nome e história para que não vire apenas uma estatística ruim. Luísa Cristina é apenas mais uma menina. Uma menina pobre. Invisível. Que sonha com cantores e artistas que ela só vai ver nas telas, nas revistas. Que se enfeita para príncipes, enquanto se prepara precocemente para os meninos ávidos que lhe oferecem um sexo bruto, rápido e malfeito. Pobres de afeto como ela. Acenando com o status de um dinheiro que não importa de onde vem. Não para ela.
Ela é bonita. Pele lisa, cor de carvalho jovem. Olhos de jabuticaba madura, pintados com o traço preto e alongado do delineador bem passado. Dentes grandes e brancos nos quais as cáries ainda não fizeram estragos. Cabelos pretos, um pouco menos limpos do que se espera; compridos demais. Mas existe alguma coisa que não combina. Que não se harmoniza. Talvez o repuxar dos cantos da boca. Talvez o piscar excessivamente lento. O desinteresse pelas aulas, as unhas descascadas nas pontas, o suor persistente na testa, o olhar desconfiado e embaçado, o riso fácil e bobo. Coisas que antes não estavam lá.
Assim que ela se senta, eu sinto o cheiro de álcool. Passa pouco do meio-dia e o hálito azedo me conta que já faz algum tempo que a bebida foi ingerida. A dor guardada há anos retorna, resgatando argumentos cuidadosamente esquecidos. A voz não sai. É preciso repensar o discurso gasto que não vai me levar a lugar algum.
Tenho poucos instantes até que ela se canse do meu silêncio e se tranque bem fundo. Não quero que ela perceba em mim piedade ou rejeição. Seria o mesmo que empurrá-la para ainda mais longe. Por isso, quebro as promessas que me fiz. Desisto do cuidado com as palavras, do rosto inexpressivo e de toda a prudência. Pergunto o que está acontecendo. Sem rodeios. Pergunto como se não soubesse. Pergunto sem qualquer esperança de ouvir uma resposta que derrube o muro entre nós duas. Mas, surpreendentemente, ela me conta tudo. Detalha momentos que me constrangem. A voz lenta, baixa, entrecortada, pastosa. Não há encenação nesse rosto em que algumas espinhas denunciam a pouca idade que a maquilagem insiste em aumentar. Ela não reduz nem exagera, não esconde nem enfeita.
Aprendeu a beber com a mãe. A mãe que a leva para a casa da avó antes de sumir e reaparecer dias depois com esmaltes, batons, doces, chicletes, perfumes e roupas baratas. Que a deixa na casa da avó porque lá ela está a salvo de tudo. A mãe a quem ela ama com a fidelidade da admiração. A mãe que ela encontra caída no canto de um botequim imundo, dormindo encostada numa parede. E a quem tenta acordar primeiro com carinhos, depois com sacudidas e, finalmente, com gritos, até que o dono do bar, para se ver livre da confusão, vem ajudá-la.
No barraco de chão batido, vê o corpo desmaiado ser jogado pelo homem no sofá furado da sala. Vê e aprende. Começa a ir buscar a mãe no botequim todos os dias. E a deitá-la no sofá vagabundo, e a dar banho nela, e a coar um café ralo que a obriga a tomar. Aprende a limpar o vômito, a merda e o mijo que fedem por toda parte. E descobre garrafas de pinga barata escondidas em gavetas e em caixas de papelão.
Prova a bebida por curiosidade. Para entender. Não gosta. Mas o calor e o relaxamento do corpo lhe trazem uma alegria desconhecida. E coragem. Passa dias sem tomar outro gole. Até que sente vontade de ter coragem outra vez. Para se exibir para os meninos do colégio, para se achar bonita, para se esquecer das roupas velhas, para não se lembrar da mãe babando no chão do bar, para ser outra pessoa. Bebe de novo. Um pouco mais. Quando a mãe descobre, acha graça. E faz dela confidente, cúmplice, companheira. Leva-a para o bar nos fins de semana. Ensina-a a agradar os homens para que eles paguem pelas bebidas e pelos boquetes inexperientes feitos na rua, atrás do bar. Mas não deixa que ela vá além do sexo oral. Quem quiser tirar o cabaço da filha que pague muito bem. E que pague adiantado. E que seja limpo. E que a leve para um quarto com banheiro e cama macia. Se não for assim, Luísa Cristina não vai dar para ninguém. Não, não vai. Nada de trepar com os meninos do colégio. Eles não podem pagar.
Eu pergunto a ela quanto tempo faz, desde o primeiro gole. Mas a resposta não importa, porque qualquer tempo é muito. Ela segue respondendo sem culpa a todas as perguntas. E eu só me surpreendo quando ela me diz que ainda é virgem. Depois de tantos anos assistindo ao sexo precoce de meninas como ela, de ver gravidezes abortadas ou crianças sendo paridas por crianças, eu ainda me assusto. Ela me confessa que se guarda para o menino de quem gosta. Não quer dormir com nenhum daqueles homens do botequim. E isso me apavora mais do que o resto. Saber que essa criatura frágil ainda sonha. É tão mais fácil quando vejo nelas o jeito adulto da descrença, o deboche da vulgaridade, a desistência irremediável.
Luísa Cristina não tem escolhas. Como tantas outras. Mas acha que tem. Ela pensa que dormir de graça com o menino da escola será melhor que com o bêbado arranjado pela mãe. Não sabe que ambos vão marcá-la com a desgraça. Que tudo é atalho conduzindo aos mesmos vícios. Que álcool, sexo, drogas, sonhos são caminhos iguais. Que entre todos os vícios ela escolheu o pior: acreditar. Ela não sabe. Mas eu sei. E quero estar lá quando ela descobrir que não há salvação. Que a salvação é patética. Estar lá quando a fé se tornar o pior inimigo. Para lhe oferecer uma escolha. Qualquer uma.
Preciso dizer isso a ela. Não agora. Não hoje. Talvez amanhã, semana que vem. Não. Não vou dizer. Não vou ter tempo. Porque eu ainda não sei, mas nunca mais vou ver Luísa Cristina. Eu ainda não sei que ela vai beber uma garrafa de pinga quando descobrir que a mãe já marcou dia e hora e preço para que ela seja estuprada na cama macia de um motel. E que, estimulada pela coragem fabricada pelo álcool, vai decidir que tem o direito de escolher o seu destino. De escolher, pela primeira vez. De escolher, pela última vez. De escolher o veneno de ratos debaixo da pia da casa da avó. A casa da avó, onde ela está a salvo de tudo. Até da vida.

 

Cinthia Kriemler é contista. Carioca, mora em Brasília desde 1969. Graduada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília (UnB). Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social (UnB).
Autora de: Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance. Editora Patuá, 2017). Na escuridão não existe cor-de-rosa (Contos. Editora Patuá, 2015) — obra semifinalista do Prêmio Oceanos 2016; Sob os escombros (Contos. Editora Patuá, 2014); Do todo que me cerca (Crônicas. Editora Patuá, 2012); Para enfim me deitar na minha alma (Contos. FAC-DF, 2010). Na Amazon Brasil, publicou os livros Contações, Atos e omissões, e contos avulsos.
Algumas antologias das quais participa: Horas partidas, Editora Penalux, 2017; Respeitável público — Histórias de circo e outras tragédias, Editora Penalux 2015; Coleção Contos Mínimos S/A, Editora Penalux, 2013; II Concurso de Poesia Autores S/A, Editora Multifoco, 2013; Prêmio SESC DF Monteiro Lobato de Contos Infantis, 2013.
Escreve para a Revista Samizdat. Tem textos publicados em: Mallarmargens, Revista Philos, Germina, Escritoras Suicidas, Diversos Afins, Conto Afora, Revista InComunidade.
Seu blog: http://cinthiakriemler.blogspot.com.br/

 

 

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