Altruísmo + Compaixão = Felicidade

A equação mencionada no título Altruísmo + Compaixão = Felicidade parece simples, mas a prática que leva a este resultado não é. Sempre que vejo amigos e mesmo pessoas desconhecidas que estão espalhando coisas boas, trabalhando com curas, aconselhamentos, ensinando meditação, yoga, dança, arte ou apenas fazendo um prato gostoso, eu curto, compartilho e ajudo a divulgar. Se considero que posso contribuir de alguma forma para que o outro tenha êxito em algo bom, não hesito em ajudar.

Porém, quem se “profissionaliza” e começa a encarar suas atividades como um empresário disfarçado de mestre/terapeuta, adotando uma postura como se apenas ele (a) pudesse ensinar – yoga apropriadamente, a correta forma de meditar ou como somente a sua técnica poderá curar – cai completamente em meu conceito e dificulta o avanço da humanidade. Torna-se apenas mais um participante desta corrida estúpida onde só um vence e é considerado o melhor. Nada mais inútil e raso. Mesmo porque daqui ninguém escapa vivo, no final só levamos o nosso coração e o que nele cultivamos.

Procuro nortear minhas ações pessoais, profissionais e espirituais baseadas em valores elevados e meu filtro é muito rigoroso. Porém, não deixo de apoiar os companheiros de jornada e as iniciativas que considero verdadeiras e fruto de um esforço individual, despretensioso e sério. Não acho que precisamos competir uns com os outros para que apenas um sobreviva. Sou adepta da cooperação, do espírito de serviço, do altruísmo e compaixão. Assim como o Dalai Lama diz: “Minha religião é a bondade”. Não preciso estar filiada a nenhuma instituição religiosa para ser boa. A ética está nas ações e não nas afiliações. Não tenho a pretensão de representar nenhuma religião, obedeço apenas minha voz interior. Procuro me inspirar na vida e ensinamentos de seres iluminados, sem me preocupar com clubes espirituais ou vestes especiais. Bebo de diversas fontes e a água é sempre fresca.

Minha ambição espiritual é muito grande, mas minha condição humana é deveras limitada. Jamais será possível a um único ser realizar o trabalho de pacificar o mundo. Todos são necessários, o esforço deve ser coletivo. É a soma de todas as partes que compõem o todo.

Hoje encontramos pessoas que transformam tudo em produto; yoga, mindfulness, coaching, terapias milagrosas, que resolvem supostamente todos os seus problemas emocionais, sexuais e financeiros de uma só vez. Os ingênuos são levados por promessas e acabam por perder um tempão, gastando muitas vezes aquilo que não têm em busca de soluções rápidas.

Mas como distinguir as pessoas sérias e comprometidas das oportunistas e que oferecem soluções enganosas? Verifique em primeiro lugar como a pessoa age em sua própria vida, não se fixe no discurso, verifique as ações. Se o mestre ou terapeuta é equilibrado, generoso e humilde. A soberba e arrogância costumam acompanhar os que “se acham” e revelam de imediato a fragilidade na personalidade do mesmo. Falar bonito qualquer um pode falar, mas FAZER bonito é bem mais difícil. Se a pessoa critica o trabalho alheio, não é gentil e nem se ocupa em atividades altruístas e desinteressadas, desconfie. Ali pode estar um empresário disfarçado de mestre e/ou terapeuta. Vejo constantemente este tipo de pessoa, às vezes sou convidada para aprender técnicas milagrosas para solucionar questões profundas em apenas “duas sessões” ou durante um workshop de final de semana. Sempre por uma pequena fortuna que será brevemente recuperada quando eu mesma puder “aplicar” estas técnicas. Investimento de retorno rápido, é o que me dizem.

Ao mesmo tempo que tenho vontade de rir, pois é tão claro pra mim que a complexidade da vida não nos permite encontrar a paz interior, saúde e prosperidade assim tão fácil, preocupo-me, pois sem empenho, dedicação, reflexão, tempo e mudança de hábitos mentais e espirituais, as aparentes conquistas desmoronam frente às inevitáveis crises da vida. E tudo volta à estaca zero, acumulando mais uma frustração aos que pagam pelos cursos ou tratamentos.

Por isso, na tentativa de realizar um trabalho profundo, com sentido e altruísta, decidi reunir pessoas em forma de coletivo. Hoje nossa equipe conta com nove pessoas, todos voluntários, que estudam e compartilham o que aprendem em projetos sócio-culturais na cidade. Tudo sem muito alarde, sem usar disso para nos promover. Fazemos isso apenas para satisfazer nossa ambição espiritual de cada dia ser melhor e beneficiar o maior número de seres. Nossa motivação é altruísta e não pretendemos em momento algum fazer parte desta corrida maluca onde um quer passar a perna no vizinho ou apagar o outro e que apenas ele possa brilhar.

O que seria do céu se houvesse apenas uma estrela? Sua luz não daria conta de embelezar o escuro da noite. O brilho sendo real e contínuo não pode ser apagado, nem diminuído e muito menos ignorado. A tendência é ser ampliado e apreciado por muitas pessoas. Quanto mais estrelas brilharem no céu, melhor!

Certa vez me contaram uma estória sobre um vaga-lume que era perseguido por uma serpente. Por haver muitas outras opções de comida para um animal tão poderoso e o vaga-lume não estar em sua cadeia de alimentação, a cobra foi indagada e a resposta foi simples – só quero comer o vaga-lume porque ele brilha.

Não estamos concorrendo com ninguém, nem precisamos apagar a luz dos outros para que só enxerguem a nossa.

Brilhemos todos! Os que olham para o céu agradecem!!

Regina Proença é filósofa, tradutora e coordena os projetos de Cultura de Paz no Coletivo Cultural Fora da Caixa.

 

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